MG-ES, 2015.

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Foto de Gabriela Biló para matéria do OESP: http://goo.gl/Tf1yte — em Regência-ES.

Ver pedaços de subsolo mineiro em mar capixaba me fez pensar na história do presente dessa relação de vizinhança para além de certos clichês dos anos 90. Pouco depois que descobriram ouro no que viria a se tornar a região das minas (e algum tempo e milhões de indígenas dizimados depois as Minas Gerais), desloca-se o eixo principal da economia colonial do nordeste na direção do sudeste brasileiro, tendo o Rio de Janeiro como porto principal de escoamento do novo extrativismo mineral, ligado às minas pela Estrada Real. Qualquer tentativa ou proposta de estabelecer a ligação da região minerária com o Espírito Santo era negada e reprimida pela coroa, por dificultar o trabalho de fiscalização e vigilância do trânsito do ouro extraído, podendo criar novas entradas nos caminhos dos portos que facilitariam o contrabando e a economia subterrânea que ele abastecia em muitas regiões. Em tempos modernos/coloniais, tal ligação MG-ES só foi consolidada de fato em meados do século passado, com a expansão da mineração e da metalurgia no leste de Minas, principalmente com a estrada de ferro Vitória-Minas construída pela Companhia Vale do Rio Doce, e pela consolidação da industrialização do vale do aço a partir do nexo mineração-siderurgia-escoamento pelos portos capixabas.
Após a crise da década de 1980 entramos no regime autoritário do imperativo das exportações de seja-lá-o-que-for que produzimos (ou melhor, extraímos e colhemos) com mais produtividade que outros países. Com isso, a escala desse trânsito MG–>ES aumenta de forma considerável, sobretudo com o escoamento de minério de ferro, seja para exportação, ou para ser transformado em pelotas de aço antes de embarcar para fora. Desde o ano 2000, a expansão chinesa multiplica esse ritmo de extração, atingindo um volume de exportação de aço muitas vezes maior do que o volume que se enviava ao Japão depois da construção do Porto de Tubarão na década de 1960. A crise pós-2008 atinge diretamente este circuito (assim como toda a economia mineira, muito vinculada à China através destas complementaridades), e leva uma pancada mais forte em 2014 com a queda mais abrupta das commodities (apanhando feio junto com todo um modelo de economia e governo, dito “lulista”, que é/era profundamente dependente da inserção brasileira na economia global, marcada no período 2004-2010 pela bonança das commodities e da fome insaciável da China por elas).
Não é nenhum segredo que em tempos de crise empresas grandes cortam custos. Por mais que tentem nos enfiar güela abaixo conversas marketeiras de responsabilidade socioambiental, meio ambiente para o grande capital em setores como estes é nada mais que puro custo. Assim como governos estaduais tentam diminuir custos advindos de barreiras impostas ao fluxo econômico por restrições ambientais, “agilizando processos”, tenta-se diminuir o valor gasto em ações preventivas, ou em melhorias estruturais de certas coisas – que também são custos, que a boa ciência corporativa manda minimizar sempre que possível – como barragens de rejeitos de minério. E sabemos bem que o custo socioambiental em países/regiões de menor renda – situados fora do chamado mundo murado – são bem mais baixos. O impacto real no valor de mercado da Volkswagen após a descoberta das fraudes nas emissões declaradas de seus veículos – que não nos contempla no Brasil, pois aqui os carros novos, com níveis de emissões de poluentes aprovados pelas autoridades reguladoras, e não somente os VW, poluem muito mais que em qualquer país do norte global – tende a ser muito mais elevado do que o que tende a ocorrer com grandes empresas responsáveis por desastres ambientais de grandes proporções em países e regiões subdesenvolvidas. Logo, menor é o custo econômico do desastre para seus CEOs responsáveis e acionistas. Uma lógica bastante parecida com a declaração do economista-chefe do Banco Mundial em 1991, Lawrence Summers, de que o custo da poluição efetivamente mais baixo em locais de menor renda torna desejável que eles sejam poluídos, pois as empresas poluidoras ajudariam estes lugares a elevar sua renda, dizendo ter sempre pensado “que países sub-povoados na África são bastante SUB-poluídos”, sendo o custo adicional de mais poluentes emitidos nestes locais muito mais baixo que no mundo já “desenvolvido”.
Nos últimos anos no Brasil aprendeu-se que doações de empresários para campanhas políticas (bem como grandes pacotes de publicidade contratados junto aos grandes veículos de mídia que ainda se atrevem a autodenominar-se de jornalísticos), não são custos, mas sim investimentos – cujo retorno vem de diversas formas. Já temos elementos concretos suficientes para entender como ocorrem e quais são os efeitos destes aportes de capital em campanhas políticas e grandes corporações midiáticas. A pergunta em aberto agora é se a ligação com o poder judiciário permanece vinculada a padrões coronelistas/patrimonialistas que são clássicos latino-americanos e terceiro-mundistas: “para os inimigos, a lei” – com o qual agora, nos anos 10, reiteramos a ligação histórica a outro clássico colonial: “para a natureza, o genocídio”.
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