[off-topic] Resistindo aos ataques

Ontem (30/3/2015) compareci a um evento organizado por organizações de esquerda em Belo Horizonte, onde foi feita uma ampla avaliação da conjuntura política atual. Sendo mais do texto do que da fala, envio minha contribuição atrasada ao debate, em tópicos para poupar tempo (de quem lê e quem escreve):

– importante consolidar Junho de 2013 como claro fortalecimento do campo amplo da esquerda, semelhante às Diretas Já e ao pré-1964; envolveu profunda renovação de pautas e de formas de ação e organização: pluralismo ganhando protagonismo de mãos dadas com horizontalidade – ambos em lento processo de consolidação a partir de 1968, com marco importante no Brasil no Fórum Social Mundial: não por acaso onde surgiu o MPL; trouxe demandas claras (contraste com Occupy), transformação do Estado e aprofundamento da democracia como eixos transversais;

– março de 2015 como retorno em separado da onda conservadora que tentou pegar carona em junho respondendo naquela ocasião ao chamado da grande mídia: permite separar joio do trigo com mais clareza no legado de junho/2013.

– fortalecimento da direita como reação a 2013 (paralelo acima: semelhante à eleição do Collor e ao protagonismo do centrão na constituinte, e ao golpe de 64); é programado; ataque é à esquerda em geral, usa o PT como ponto fraco pra bater no campo inteiro e tentar neutralizar junho; tenta fabricar e generalizar a imagem da não-diferenciação entre o governismo e a esquerda de oposição; falas em grupos de whatsapp (nova ferramenta de mobilização conservadora, não tem abertura e exposição ao ridículo e às respostas progressistas em larga escala, é entre amigos, permite proliferar micro-fascismo): “black bloc era tudo comprado por partido”.

– em 2004-5 dizia-se muito em alguns meios que o PT era uma combinação pior que o governo tucano, pois fazia a mesma coisa e conseguia cooptar, amansar, neutralizar a esquerda; a respeito da primeira parte: a saída de cena do crescimento desfaz o pacto lulista, não há mais crescimento inclusivo via consumo que distribui para as bases da pirâmide e posteriormente faz a renda fluir de volta para o topo através do próprio mercado; sobre a segunda: torna-se intolerável às forças conservadoras a combinação PT no governo com esquerda autônoma forte e ativa.

– congresso acuado em junho/2013: pressão das ruas por reforma política verdadeira, Dilma joga bomba pro legislativo – sabendo que vão fingir que não é com eles, mas tentando escancarar que é ali que mora a barreira maior ao avanço da democracia. No entanto, o PT, ao aceitar jogar o jogo, retroalimenta essa lógica: o fortalecimento recente do PMDB como produto petista.

– o que são essas forças conservadoras? Neoliberalismo (bancos, capitais diversos dependendo da manutenção e do re-ajuste de determinadas formas de regulação), necessidade de manter regime de financiamento privado de campanhas (fortalecimento de um formato de reforma política conservadora) para continuar a sustentar estrutura representativa a serviço do poder econômico, anti-reforma tributária progressiva (imposto de grandes fortunas + imposto de renda alto/impostos indiretos baixos), anti-reforma da mídia, anti-aborto, anti-LGBT, anti-movimento negro, anti-maconha, anti-direitos indígenas, anti-meio ambiente, anti-direitos humanos (pró-redução da maioridade penal), anti-minorias.

– neoliberalismo vinculado à reprodução da democracia limitada, aprofundamento democrático ameaça estrutura de poder que sustenta nexo neoliberal;

– contexto internacional: ampliação do espaço de atuação dos BRICS, fortalecimento de ligações Rússia-China, em disputa inclusive por partes da Europa, em paralelo e com alcance para além do conflito na Ucrânia; América Latina ganha importância no jogo geopolítico – crise desde 2008, e o fracasso da tentativa de resposta pseudo-keynesiana no primeiro mandato de Dilma como oportunidade de retomada das rédeas pelas forças à direita do PT; reeleição petista só possível pelo próprio fortalecimento da esquerda (conservadorismo ciente da legitimidade atualmente em cheque em função da guinada à direita pós-reeleição, aproveita para bater com mais força);

– direita atuando em várias frentes:
:: igreja evangélica: forma de garantir espaço no congresso (virou máquina eleitoreira de grande eficiência) + de ampliação de bancadas contra as reformas acima;
:: condenação/demonização do discurso de esquerda como um todo, usando o PT como arma/ponto fraco supostamente do mesmo corpo (via corrupção, principalmente);
:: ataque direto como forma de sair do recuo (manifestações; grande mídia recrudescendo, ampliando espaço para discursos conservadores), ampliado já na campanha presidencial, continuado desde então;
:: imposição do ajuste fiscal, do tarifaço, e do PAEG de Joaquim Levy (reboot na política econômica visando reversão dos ganhos de participação do trabalho no produto total da última década para aumentar atratividade do investimento – semelhante ao primeiro plano econômico do regime militar);
:: tentativa de utilização de formas de organização advindas da esquerda contemporânea, sobretudo no Podemos e no Syriza, em rede e online, visando proliferação e efeitos cascata, mas mantendo estrutura hierárquica clara, com formas de financiamento diversas e sem restrições, com ligações diretas a grandes interesses.

– Importante: reacionar Junho, usando oportunidade da auto-segregação ativa de suas frações à direita, em escalas diversas, e refortalecendo o trabalho em torno de pautas bem definidas; denunciar/barrar sequestro da reforma política (qualificar: reforma política conservadora X reforma política popular/progressista); manter campo de crítica de esquerda ao governo desligado de sua instrumentalização por forças conservadoras – só é possível através da atividade.

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