A tecnocracia e a “perda de tempo” no transporte público

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Harley Silva

Em declaração recente o presidente da BHTrans em evento onde se discutia questões urbano ambientais classificou como “perda de tempo” e “populismo” o uso de transporte público por parte dos gestores e técnicos do sistema. A declaração, capturada por um aparelho gravador na plateia do evento pode ser ouvida aqui.

A afirmação veio como resposta a questão formulada [aparentemente] por um membro da mesa resumindo conteúdo de diversas perguntas por escrito ao dirigente do órgão gestor de transito e transporte de Belo Horizonte. A questão era direta: o dirigente e outros dos principais funcionários da entidade haviam usado o transporte público da cidade em período recente – lembremos que está em implantação o sistema de BRT na capital mineira! – para conhecer de perto o funcionamento?

A resposta veio rápida e – até no meio de uma certa frase – confiante. “Não cabe ao presidente da BHTrans e seus diretores ficar viajando para cima e para baixo de BRT…”. segue-se uma defesa de uma posição tecnocrática. A obrigação do dirigente é comandar a entidade. Caberia a ele(s) “fazer viagens nos modos de transporte”, “vistar obras”, “acompanhar como a população se locomove pela cidade”. Nesse momento, o ponto alto do argumento: “mas fazer populismo de andar de ônibus, perder… é… é… um tempo…”. No meio da frase o tecnocrata percebe ter sido demasiado verdadeiro no que diz e mal consegue terminar a frase diante da reação dos presentes.

A frase, e o ato falho, do presidente da BHTrans deixa entrever mais do que a pouca relevância que o eminente funcionário público confere ao elemento fundamental da existência da entidade que ele recebeu delegação para administrar, ou seja o tempo de vida do cidadão gasto no transporte público. Nesse caso, a reação da plateia ainda antes que o palestrante acabe a sua frase pega o pássaro em pleno voo. Aos dirigentes e técnicos, não cabe perder tempo no transporte público. Isso se reserva ao cidadão-usuário. Ele que perca o seu tempo nos engarrafamentos, baldeações e desconfortos do sistema em seus múltiplos gargalos. Os presentes puniram a fala, o vídeo a trouxe a público e aqui fazemos eco a isso.

Mas há ainda mais coisas. A referencia ao uso do transporte público pelos técnicos que os contratam, planejam e administram é chamada de populismo, como se sabe, termo tomado de empréstimo a ciência política e usado com frequência e grande liberalidade, digamos, para desqualificar posições políticas e administrativas que pretendem atender os anseios do público amplo, contra uma pretensa regra técnica, informada, cientifica. Ora, aqui o argumento é cheio de sentidos “interessantes”. O que há de mais necessário a quem administra do que saber se o que faz funciona de fato? Ainda mais se o tal objetivo dá-se pelo gasto de gordas parcelas do orçamento público… custa caro, muito caro. Reservar ao técnico a posição alheia ao funcionamento cotidiano tomando sua presença no transporte público, é um exercício de cinismo incrível. Só pode ser expresso na esperança de que a “opinião pública” compartilhe o desdém pelo usuário mais simples, mais exposto aos descaminhos do conhecimento técnico e da política pública descompromissada com aqueles que de fato fazem uso do que é público. Isso pelo jeito se torna cada vez menos verdade, a julgar pela reação da plateia, mesmo que a desigualdade social brasileira seja o terreno comum desse tipo de comportamento.

Resta ainda dizer que o presidente da empresa diz que seria sim obrigação sua e de seus dirigidos “visitar obras” e outros relevante procedimentos técnico-burocráticos. Ora, quem acompanhou pelas noticias recentes a infinidade de idas e vindas, erros, construções e demolições do projeto do BRT, e dos trinta anos de obras nas avenidas Cristiano Machado e Antônio Carlos, se perguntaria: “Uai! Mas essa parte tem sido feita”?

Não se trata de falar em uso ilegal de dinheiro público. Trata-se sim de enxergar aí evidências fortes de que o objetivo final das obras não seja mais o seu uso e sim a sua realização. Toda atenção à obra pode e deve ser dada. É dever cumprido. E mesmo assim os erros se sucedem e se acumulam, perdulariamente.

E qual atenção pode ser dada ao uso do equipamento público? O que dizer dos desconfortos recorrentes? Da perda de horas preciosas de descanso, trabalho e vida? Como lidar com as distancias do automóvel imputadas ao pedestre? O que dizer de um sistema de transporte do qual nenhum usuário está a menos do que 300 ou 500 metros de distancia entre sua casa ou trabalho e as estações de embarque, e em geral em meio a um deserto de concreto já que a instalação do “sistema” pressupôs quase sempre a negação da urbanidade das vias e sua transformação em vias expressas ou estradas?

Essa parte não importa. Entra na rubrica do populismo, do uso sub-técnico do saber, da razão irracional do reclamador das ruas.

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Uma resposta em “A tecnocracia e a “perda de tempo” no transporte público

  1. Cabe ao Prefeito de BH imediatamente DEMITIR todo o quadro de diretoria da BHTrans e colocar gente que preste na direção dessa estatal de transportes que NÃO tem um único ônibus mas que tem o DEVER de FISCALIZAR de verdade o transporte urbano feito por quase 2.900 ônibus de 46 empresas ESCONDIDAS dentro desses 4 malditos consórcios identificados pelos prefixos de série 10.000 – 20.000 – 30.000 e 40.000
    Estou aborrecido com esta b*sta de administração (?) existente dentro da BHTrans onde se colocam pessoas que NÃO tem competência alguma para pegar um ônibus diariamente e ver se esta b*sta chamada IMOVE está mesmo funcionando ! E isto porquê há muito tempo (desde março de 2014) deixou de ser chamado de MOVE – Chega de perder tempo esperando ônibus demorados chegarem abarrotados de passageiros desse tal de IMOVE.

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