Morituri mortuis (Por uma vida sem catracas!)

para os que não pude conhecer, para William Rosa Alves

por Alícia Duarte Penna

1) A cada início de semestre conto aos meus alunos de Arquitetura e Urbanismo o caso do trabalho final de graduação cujo tema era um cemitério. Enquanto nós, da banca examinadora, aguardávamos expectantes as ponderações da aluna sobre a morte, sobre os mortos e os que lhes sobrevivem (pois só há os nossos mortos quando estamos vivos; quando estamos vivos é que perdemos), sobre o velar, o despedir-se, o enterrar, o homenagear, o visitar, a aluna foi direto a um ponto: o terreno é este, são “n” metros quadrados, serão “n” túmulos, com valores diferentes em função da localização, assim mesmo, convicta, como se nos estivesse apresentando um empreendimento imobiliário. Foi reprovada. Não pela sua visão empresarial de um cemitério, também terra medida, mas por sequer entender que esta era uma visão escolhida, uma dentre outras.  1

2) Pela reportagem de um jornal local, gentilmente enviada por uma amiga professora de História, ficamos sabendo que a valorização de um jazigo em cemitério privado ultrapassa a de imóveis localizados na Zona Sul da cidade, sendo, portanto, melhor negócio especular com a terra morta do que com a viva. Nos cemitérios públicos – Bonfim, Saudade, da Paz (e há que se reconhecer o caráter público desses cemitérios também em seus nomes, nada marketingueteiros ou estratosféricos como o dos Parques e Bosques – Renascer, da Esperança etc.-, onde, com certeza, morre-se muito melhor, delevelmente), os jazigos são perpétuos, isto é, sediam a sucessão de mortos de uma família, expandida tanto quanto subtraída ad aeternum. Assim, por exemplo, no Cemitério do Bonfim, o primeiro de Belo Horizonte, uma família pode ter morrido Barbosa a primeira vez, digamos, em 1910, e hoje já morre Alves Peixoto. São pequenas árvores genealógicas as inscrições nos túmulos compartilhados, herdados também amorosamente. Indicam ainda que primeiros nomes são também herança: um primeiro nome nascido em 1922 é neta de um primeiro nome nascido no século XIX, uma diferença sugestiva entre a herança matriarcal, adjetiva, e a patriarcal, substantiva, numa sociedade ainda arcal. Trazem, algumas, apelidos, que morrem mais. Muitas vezes, frases, pungentes toda vez: “Amo-te eternamente até onde minha alma alcança”, disseram – imprimiram- Kátia e André ao se despedirem de Victor Amorim Prosdoscimi, cujo jazigo é o mais reluzente do Cemitério do Bonfim, em endereço (Quadra, Carneiro: assim se endereçam eles) que não anotamos minha irmã e eu enquanto íamos, entre dispersas e concentradas, em direção ao túmulo de nossos avós, nosso pai e nossos tios, roubado ontem, 28 de Julho de 2013.

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3) Mas o que é a beleza? Para o arquiteto Sérgio Ferro, a beleza, em separado, é um conceito desesperadamente vazio. Até o século XIX, neste Brasil, invenção e construção vinham de um homem só. A partir daí, separa-se o homem, separa-se o trabalho mental do braçal como se separam ricos de pobres, e vice-versa, na cidade que não viria a ser desigual somente quanto à distribuição da beleza, pois já não se poderia falar, então, na beleza – se tomado o conceito esperançosamente cheio (da beleza como trabalho alegre, livre, portanto: Art is joy in labour, escreveu o William Morris citado por Sérgio Ferro). Nos monumentos centrais – justamente porque centrais e pelos homens não-centrais produzidos- não há beleza. O pobre já não reconhece o fruto do seu trabalho – isso que poderia ser a arte-; o rico aliena-se do trabalho – isso que já não é a arte- do qual colhe os frutos. Discretamente posicionadas nas laterais de algumas lápides, plaquinhas trazem o nome dos autores dos túmulos: obras, portanto; portanto, beleza.

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4) Túmulos e superlativos mausoléus do Bonfim surgiram numa cidade ainda individida, numa Belo Horizonte de cemitério único. Não leio hoje, como não li doutras muitas vezes em que estive aqui (quantos avós, pais, tios, a mãe e o pai, Paula, Guilherme, Jonas, Rodrigo, Marina), nem mesmo nos superlativos mausoléus – de governadores, ex-ministros, ricos comerciantes-, uma ascendência, a dominação, a exploração, a injustiça. Antes, não quero estar morta, mesmo sob a homenagem superlativa; não estou morta, embora não-governadora, posso pensar como deve (imagino, sozinha) pensar um coveiro, um carregador de coroas, um vivo. E, logo (imagino agora com os que inventaram e construíram aquelas esculturas): a pedra é perpétua e então, não mais de ninguém, de ninguém, que não somos perpétuos, mas por enquanto sua e sua também, também minha.

5) Henriqueta Lisboa, “Belo Horizonte”:

Uma cidade se levanta

do solo às nuvens.

De atalhos parte para avenidas.

Do caos se amolda à geometria:

triângulos quadriláteros círculos.

Uma cidade sobe dos prados

para o lombo das serras.

Destrói choupanas e constrói

arranha-céus.

Forma-se de colunas firmes

e fúlgidos vidros de sol.

Protege-se dos ventos e deixa

que a umidade a abandone.

Uma cidade é imperativo humano e desumano.

Palácios presídios

asfalto cavernas

elevados e subterrâneos

teia de virtudes e crimes.

Uma cidade é sintonia

com ásperas dissonâncias.

É um ser total de osso e carne,

tem nervos, músculos e sangue:

o sangue de seus habitantes

os nervos de seus habitantes,

a própria força e fraqueza.

Uma cidade segue o ritmo

ágil ou tosco dos homens.

Fala pela voz de criaturas

imperfeitas e insatisfeitas.

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6) Dispersas e concentradas íamos minha irmã e eu, buscando mais sentimentos e mais razões para a nossa indignação e para as nossas ações contrárias ao abandono do Cemitério (daquela beleza, daquelas mortes, da morte): pela “Quadra da Gripe Espanhola”, onde estão as vítimas da epidemia que assolou a cidade em 1918, inclusive Geraldo e Clarice, sem sobrenome e sem vida adulta, em seus pequenos túmulos ainda berços, em ruínas; pelo túmulo dos “Soldados mortos na Campanha de 1929”, os nomes apagando-se, apagando-se; pelo mausoléu de Raul Soares, sem as falsas correntes que o cercavam, substituídas por um rodapé de uma fileira de tijolos furados; pelo de Antônio Aleixo, hoje apenas um “A”, pois dele, como de muitos (quase todos, constatamos!) nomes roubaram-se as letras, não mais fabricadas em metal por mão alguma desde que morreu, centenário e sem aprendizes, seu artesão, enterrado não se sabe onde (onde, onde estarão enterrados os Irmãos Natali?). Na porção posterior do Cemitério, ao longo do muro encimado por cacos de vidro e arame farpado, a visão é a de uma segunda morte: decapitaram-se cruzes, arrancaram-se imagens, flores, placas. Arrancou-se bronze, se tudo terá sido entregue para ser derretido logo ali na Avenida Pedro II, em troca de mais uma dose de crack, cujo valor ao menos assim somos capazes de reconhecer. Arrancou-se algo mais- em crack ou outra moeda corrente-, se pelo menos parte viajou em direção a quem tenha o olho especialista que sabe escolher – previamente?, indaga minha irmã restauradora- o que há de mais belo em cada quadra, em cada carneiro: dores exprimíveis até pelos pés, dorsos desolados, panos pétreos sob a gravidade, muitos deles de autoria dos Irmãos Natali, italianos como tantos outros que aqui vieram, duplamente desaparecidos ao se fazer desaparecer ante nossos olhos a sua obra.

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7) Do zelador e associado da APRESC – Associação dos Prestadores de Serviço dos Cemitérios- obtivemos a informação de que no Cemitério da Saudade tudo está ainda pior, um pior que vem só piorando desde as três últimas gestões da Administração Municipal, até chegar a este ponto em que estamos: o velho corcel alaranjado do serralheiro estacionado em frente ao mausoléu da Família Meirelles saqueado do que já não se faz mais. Da Guarda Municipal, a informação é a de que há os suspeitos de sempre, reincidentes. Suspeitos reincidentes que obtiveram o tempo e o silêncio suficientes para arrancar e carregar, muro acima, muro abaixo e avenidas afora, peças que pesam muito mais do que uma cruz, entre as quais as rosas em bronze que enfeitavam o túmulo vizinho ao da Família Meirelles, cuja metade um bando de irmãs traficamos às barbas da Guarda Municipal. No lugar das peças arrancadas dali, dacolá, de todas as quadras e de todos os carneiros, indistintamente: buracos. O ponto em que estamos.

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8) A hora do enterro é, ainda, a hora da morte, que ainda será a da visita ao túmulo (nos Finados, nos aniversários, nas saudades). Fica na terra, da morte, das mortes, ainda um lugar, sempre o mesmo, a que se volta. No entanto, no Bonfim, na Saudade como na Paz, administrados pelo Município, mortos de uma família são enterrados no jazigo de outra, sem sobreaviso, e sem prévia revolução. Não, não se abrirão as vagas aos mortos que não podem pagar, avisa-me outro amigo: a proposta desta Prefeitura é a de colocar os jazigos abandonados à venda, ao preço por ela estabelecido.

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9) O Cemitério do Bonfim é bem tombado municipalmente. È preciso entender de novo o antigo, que, sendo antigo, é de outro jeito, ao revés da indústria, em atraso ao econômico, ao tempo que se adianta, descompassando-nos. O passado revela, no imediato, as relações sociais de produção: o novíssimo e o que por ele se atrasa.

10) “O jazigo é uma concessão”, pronuncia com um sorriso indiferente o guarda municipal Eurico, com a pistola de choque embainhada, reparo, a mesma pistola usada contra os manifestantes em Junho, penso. _ São também concessões um forte, uma casa, um bar, suas botas sobre este solo!, quero gritar. O público, o privado são concessões do comum, ensinou-me um amigo.

11) Pode-se começar a contar a história do solo de Belo Horizonte a partir do primeiro inventário realizado pela Comissão Construtora da Nova Capital de Minas, onde constavam os nomes dos proprietários mas não a medida das terras que possuíam. Eram “terras” – em indefinido plural- as do Arraial do Curral D’El Rey, até que, no segundo inventário, já realizado para fins de desapropriação (“verdadeiras negociações de compra e venda”, acusaria uma testemunha), uma medida aparece: alqueire, e, associada a ela, outra: o conto de réis. No Plano Original, está lá o Cemitério, na Zona Suburbana como o Matadouro. O terreno reservado ao Jardim Zoológico, na Zona Urbana, foi cedido ao Minas Tênis Clube. Os terrenos ocupados pelas igrejas, na década de 70 tomados por estacionamentos e lojas por elas explorados (inspirando o “Triste Horizonte” de Carlos Drummond de Andrade), foram igualmente cedidos. A Prefeitura de agora não sabe qual é a propriedade imobiliária de que dispõe: eis sua usura. Também o poder sobre o solo do cemitério – público- é o que pode torná-lo mais do que privado, do que não-público, não-comum.

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12) José de Souza Martins conta-nos como em São Paulo, na passagem do subúrbio rural ao industrial, a morte deixa de ser um acontecimento coletivo (e natural) para se tornar um acontecimento privado (e prematuro). Ao mesmo tempo vão desaparecendo as terras coletivas, adquiridas pelos que irão loteá-las. Ernest Mandel dita que a fase do capitalismo em que estamos é a da industrialização de tudo pela primeira vez.

Quando minha mãe morreu, num box (assim se chama) de uma Unidade de Tratamento Intensivo (assim se chama) de um Life Center (assim se chama), caí no chão, chorando. Acudiram-me as enfermeiras, oferecendo-me calmantes. Olhei para elas como olhei para aquele guarda municipal e desta vez gritei: _ A minha mãe morreu!

Karl Marx:

Essa ciência maravilhosa da indústria é ao mesmo tempo a ciência do ascetismo. (…) Por isso a economia política, apesar de sua aparência mundana e prazerosa, é uma verdadeira ciência moral, a mais moral das ciências. A auto-renúncia, a renúncia à vida e a todo carecimento humano é seu dogma fundamental.

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13) Uma Cidade em que a morte – a vida – não seja audível? Um Estado surdo à morte – à vida?

Paul Celan, “A MARCA DE UMA MORDIDA em lugar algum”:

Também a ela

tens de combater,

a partir daqui.

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14) Custei muito a me fechar no escritório intocável a cada exaustivo final de semestre letivo para escrever sobre o Junho – agora Julho-Agosto- belorizontino, este que não acabou nem acabará e em busca de cujas origens sem fim seremos obrigados, finalmente, a contar de outro modo a história-geografia da nossa urbanização, da nossa vida e da nossa morte. Por exemplo, mapeando-se a resistência das localizações (contra a distância, contra o ocultamento).

15) Foi preciso deixar de ir aos lugares onde tudo estava acontecendo, foi preciso deixar de ler o que foi ou estava sendo escrito sobre tudo o que estava acontecendo. Foi preciso desviar-me daí para cair na Literatura. Foi preciso conhecer a história de uma correspondente de guerra a quem não cabia qualificar o relato do que via com seus próprios olhos (sem nada subtrair, nada acrescentar, nada inventar, nada falsear, explicou ela uma vez) nem de objetivo nem de subjetivo. Foi preciso descobrir um navegador plebeu que em 1484 pensou ter alcançado o fim da terra, que, no entanto, ficava adiante. Foi preciso dar muitas voltas em torno do que se anunciava, justamente porque o que nos apareceu, desde o dia 1 em São Paulo, chamou-nos, como cada vez mais raramente somos chamados, ao real. Não se tratava de um anúncio, mas do que estava bem aí e, por isso, surpreendente.

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16) Não deveria ser preciso, contudo, não poderia ser preciso aparecer – em fundo cinza e frio- a morte, em Belo Horizonte, na Maré no Rio de Janeiro, e onde mais – ou menos: não contabilizarei quantas foram elas. Não contabilizarei uma morte como sendo menos do que duas, nem duas mortes como sendo menos do que nove, onze ou treze. Tampouco direi que elas não foram em vão. Ao escrever sobre o bandido Mineirinho, Clarice Lispector está indignada com quantas vezes, por quantos tiros, foi ele assassinado: “A primeira bala…”. Direi que, diferente do assassinato, em 1968, em plena Ditadura Militar, de Edson Luís de Lima Souto, 17 anos, esse mesmo e acumulado assassinato de agora é o da plena Ditadura do Capital, esta que abstrai a morte como a vida. A pergunta é: teremos que morrer mais?

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17) O real queima.

18) Caminhando em multidão naquela segunda-feira, o que vi nunca tinha visto. Havia corpos a cobrir uma Linha, não apenas uma Avenida. Marchamos sobre viadutos. Não sabíamos quem éramos ao todo e, logo, em partes, iríamos deixando de saber e ao mesmo tempo obrigando-nos a saber quem éramos. Procurei e achei pares: alunos, ex-alunos agora professores, professores, praiasdaestação, foralacerdas, ficafícus. Cada movimento meu – lateral- de identificação e de aproximação era medroso; corajoso cada movimento –frontal- de desarraigamento. À medida que avançava, a atração e o risco de não voltar mais, clandestina, em festa e guerra.

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19) A largura da multidão na largura da Linha (quantos metros a mais, a menos do que um boulevard haussmaniano, um Eixo Monumental? : essa uma conta impossível ao corpo também por isso empurrado à morte) transformava o gozo de estarmos a pé onde o veículo pisa uma conquista curta àquela altura, onde parecíamos voar no real. Olhava os cartazes empunhados, em esforço burro, cego pelo clarão, de compreensão da soma e das interseções dos motes, quando um aluno me ofereceu um cartaz, já pronto…que seria também o meu? Ainda sem me apossar da possibilidade da pergunta e sem resposta a ela, recusei o cartaz, porque não conseguiria, expliquei ao aluno, caminhar com os braços erguidos – meu corpo-outro em meio aos jovens, acusados eles de estarem ali aos amassos, pelos exigentes (até quando, ai, ai, ai?) da desigualdade entre corpo e mente que se reproduz em desigualdades outras: entre pobre e rico, preto e branco, mulher e homem, emoção e razão.

20) Se não mais sabíamos quem éramos– estranhando-nos e nos reconhecendo nos corpos-cartazes (a voz tornada imagem a ser vista, curtida, comentada, compartilhada, não som a ser ouvido, sem eco) que agora acorriam vindos não só do Centro, da Praça Sete, mas também dos bairros ao norte, éramos muitos; éramos mais! Ao nos aproximarmos dali onde o espaço fora usurpado, justo onde a Linha se abre em descampado e se divide em gradis – usurpação também pela geometria-, decidimos recuar, em três. Tomamos o primeiro ônibus que, livre na direção favorável- Bairro-Centro – atravessou Norte-Sul em 20 minutos, nem pouco nem muito quando em festa e guerra. Poupamos nossos corpos distanciando-nos. Da proximidade entre corpos – quaisquer – no espaço, encontro/confronto, Eros/Tanatos, Afrodite/Ares. Foi também o primeiro confronto. A primeira queda do Viaduto/Abismo, as primeiras prisões, as primeiras feridas – a bala, a gás e, de muito perto, a soco.

21) Na primeira televisão, dividiu-se o bem do mal; o nacionalismo, do vandalismo; o cartaz, do corpo; a festa, da guerra. Um sentido colado às manifestações, porém, não será elas E se um sentido colado às manifestações prepara um Golpe, é porque

Paul Celan, UM RIBOMBAR:

é

a própria verdade

que entre as pessoas

surgiu,

em meio ao

turbilhão de metáforas.

(“Uma palavra- tu sabes: /um cadáver”, escreveu também Paul Celan, poeta de origem romena que se identificava alemão, filho de judeus de língua alemã. O poeta dizia escrever a partir do seu 20 de janeiro, o de 1942, quando, numa Casa Grande à beira do Lago Wansee, decidiu-se a solução final.)

22) Na véspera da quarta-feira, reunidos em assembléia horizontal sob o Viaduto de Santa Tereza os grupos de Educação, Saúde, Cultura, Comunicação, Transporte, Moradia (depois Reforma Urbana), Meio Ambiente, e Segurança. Passo por alguns, paro no de Segurança, cheio, nove inscritos à frente de mim (suspeita em meu corpo-outro, que aos jovens parece infiltrado). Ouço: “ir até o Mineirão é levar nossos companheiros à morte”; “decidiremos juntos na hora para onde ir, mas decidimos agora que vamos todos juntos”. Mas como, como não ir até lá?, gaguejamos. Como, como decidir em muitos, não em todos, o que todos farão?, gaguejamos. Uma comissão ainda dirá ao governador que a morte será sua responsabilidade. O governador ainda dirá a ela que não haverá morte. Palavra.

23) Em todos os não-dias em todos os não-lugares, os corpos e os tempos que se empregam são os tomados pelo Capital-Estado. Na quarta-feira na Linha, corpos já feridos adiantam-se, em festa e guerra, pé e pedra contra Muro.

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24) Asseverou-se em 2006 que o crescimento da informalidade urbana no Brasil vinha superando o crescimento da pobreza, o que resultava em: 6,4 milhões sem a casa, 26 milhões sem a água na casa, 14 milhões sem a coleta do lixo da casa, 83 milhões sem o sistema de esgotamento ligado à casa (quem sabe o artigo definido favorece a realização do sentido dessa carência?). Mas se há desproporção entre as quantidades da informalidade urbana – maiores- e as da pobreza- menores-, a medida da última abstrai a da primeira.

De que pobreza se estaria falando, então? E de que riqueza (de que horizonte da pobreza, portanto), se a medida faz coincidir a “formalidade urbana”, por oposição, com casa-água-coleta de lixo-saneamento? 

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25) “La production d’espace, ce n’est pas un incident de parcours, mais une question de vie ou de mort”

                       Henri Lefebvre

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Dentre as definições de “modo de produção” enunciadas pelo próprio Karl Marx e relembradas por David Harvey, fiquemos com aquela que abrange, mais do que simplesmente a reprodução da existência, a própria existência. Se dessa definição podemos aferir, marxianamente, que a relação entre base ou infra-estrutura e superestrutura é muito mais complexa, espaço, tempo e corpo escapam à distinção e à hierarquização base-estrutura-superestrutura. Não nos deslocamos da estrita tradição marxista ao supor que as histórias – do modo de produção, do espaço, do tempo e do corpo– são uma só, e não apenas por suas mútuas determinações. Ora, se o modo de produção transforma-se não meramente segundo a escassez e a abundância que produz, pois produção é reprodução, tampouco essa se restringe à esfera ideológica: estamos, aqui, na esfera da vida.

Como essa história – do modo de produção, tanto quanto do espaço, do tempo e do corpo- teria se concretizado na cidade brasileira entre os séculos XIX e XX?

O primeiro período dessa história-geografia iria da primeira cidade – a que denominamos cidade do espaço, do tempo e do corpo únicos– à segunda – a cidade do espaço único, dos tempos e dos corpos revelados. Nesse período, vai-se da cidade colonial à cidade comercial, de uma forma urbana concentrada com seus pontos focais a uma forma urbana concentrada com sua rua principal, na qual os senhores mais tempo passam e mais gastam, numa vida na cidade que já é diferente da vida no campo, mas onde não irrompe a contradição entre dominados e dominantes. Tal corresponderia à cidade sem setores, em que não há dominação política e econômica pelo espaço urbano, em que não há um centro que torne vantajosa tal ou qual localização, em que não se pode falar em economia de viagens. Trata-se de um período em que a cidade colonial ou da conquista guarda-se na cidade comercial, em que não há conflito entre as classes – entre a classe senhorial e a de comerciantes, financistas (usurários) e transportadores-, nem entre modos de produção. Não há, aí, ainda, classes: a pobreza que há, aí, é de liberdade, de humanidade.

Nesse período, nessas cidades, o centro que há o é somente por ser o local onde se concentram, mas não exclusivamente, os usos não residenciais. Por esse centro, onde se encena a vida na cidade diferente da vida no campo, a cidade não se distingue dos arrabaldes, senão por essa encenação. Não há, aí, uma desigualdade; não há uma pobreza e uma riqueza dadas pela disponibilidade de equipamentos e de infraestrutura e pela economia de viagens; dadas por uma periferia e um centro. Há desigualdade quanto à qualidade de construções, o que distingue o senhor ou o patrão do trabalhador autônomo, e dominação política e econômica pelo espaço arquitetônico, o que distingue o trabalhador ou o morador autônomos do escravo ou do empregado sob o teto alheio do senhor ou do patrão.

Aquela acentralidade, somada à realização de muitas atividades no espaço público (muitas posto que ainda não poucas, interditas ou deslocadas ao espaço privado), porém, converte a pobreza e a riqueza de liberdade, ou a assimetria (não a desigualdade) entre corpos sociais – anulado o do escravo pelo do senhor –, em uma desigualdade (agora, sim) entre corpos espaciais – pobre, em vivência[1], o do senhor, e rico, em vivência, o do escravo que circula livremente.

Sob a dominação que recobre toda a cidade e seus arrabaldes, trata-se de um corpo e de um tempo únicos, em e por um espaço único. A inexistência de luta entre classes (ou de classes propriamente) e entre modos de produção corresponde a essa estrutura sem uma periferia e sem um centro que a ela se contraponha, a uma pobreza que sequer pode se distinguir da riqueza, a um trabalho(?) em que o trabalhador(?) não é proprietário sequer do corpo-força-de-trabalho, a um capital(?) que não se separou do trabalho(?).

Foi essa cidade obra? Havia, aí, estilo, ainda que no seio da miséria e da opressão (direta)? Tendemos a afirmar: sombriamente, o escravo[2] não equivale ao camponês, nem ao camponês tornado operário em busca também da cidade, ainda que também para o escravo a vida na cidade pudesse diferir da vida no campo. As cidades que poderiam ser assim qualificadas, se o desejamos, seriam aquelas em que há tempo e corpo próprios (e, portanto, apropriação, ou experiência) e o espaço que os reúne. Lampeja, aqui, essa cidade-obra, enquanto se trata menos da luta de classes e mais do conflito entre modos de produção? Apaga-se ela, aqui, quando um modo de produção passa a dominar?

No período seguinte, que se estenderia da segunda cidade – a cidade do espaço único, dos corpos e tempos revelados– à terceira – a cidade do espaço dividido, dos corpos e tempos obscurecidos-, instala-se, aqui, a segregação social urbana, menos, porém, pelo surgimento das fábricas, mais pelo surgimento do centro; menos pela conversão da cidade em centro de produção, mais pela sua conversão em produto. Por tudo isso, instala-se aqui qual pobreza, qual riqueza; qual escassez, qual abundância?

Segregando-se essa cidade e dividindo-se o seu centro, instala-se a dominação política e econômica através do espaço urbano, verificando-se, então:

–  quanto à disponibilidade de equipamentos e de infraestrutura e à qualidade das construções, uma desigualdade entre os que estão nos setores de moradia das camadas de baixa renda e os que estão nos setores de moradia das camadas de alta renda;

–  quanto à economia de viagens, uma igualdade – entre os que moram no setor abandonado do centro e os que compensam a distância do setor nobre do centro com sua mobilidade –, e uma desigualdade – entre os que moram na periferia subequipada que não é região industrial, de um lado, e, de outro, os que moram na periferia subequipada que é região industrial, os que moram no setor abandonado do centro e os que compensam a distância do setor nobre do centro com sua mobilidade.

Verdadeiramente modesta – ou pobre – passaria a ser, então, a condição daquele cujo critério de escolha do local de moradia é exclusivamente a proximidade do trabalho. Não obstante, é no central que se misturam o tempo livre e o tempo do trabalho – criativo –, para os que, autônomos como Sinhô (compositor) e Cartola (compositor),  circulam livremente, como o fruto do seu trabalho, entre tempos como entre espaços; para esses corpos apropriados em que vida e morte (eroticamente) se tangenciam.

Quando (e onde) se separam o tempo livre do tempo do trabalho, o criativo do repetitivo, quando já se alcança aquela sofisticação da compreensão do lucro (aquela sofisticação da separação entre o capital e o trabalho), alcança-se o centro, pela diversão que pretende afastar a morte, pela alienação do corpo-do-capital do corpo-do-trabalho.

Num mesmo movimento, alcança-se a sofisticação da compreensão da exploração: o bairro proletário, a favela (à época identificada como um conjunto de bairros). Apartados o fruto do trabalho e o trabalho na cidade, o que não é o tempo do trabalho é o tempo livre, tornado tempo próprio, apropriação. Indivisível o eu operário na fábrica-oficina, indivisível o operário que é artesão, o morador do bairro proletário que é agente de movimento social, indivisíveis os prováveis operários no bonde e na festa, na periferia que ainda não o seria propriamente, posto que produto e obra de seus moradores. Se já não lampeja nessa cidade o corpo suado, posto que apartado do corpo asseado – ambos obscurecidos, então –, ainda lampeja, nessa cidade-produto, com seu único centro (ainda que dividido) e seus bairros, a obra: o corpo espacial, ainda que social, a apropriação sob a dominação-exploração, sob a acumulação primitiva.

Sob essa acumulação, casam-se o centro e o bairro: o primeiro, monumento pela dominação (sobre a apropriação), pelo espaço (sobre o tempo), e o segundo, monumento pela apropriação (sob a dominação), pelo tempo (sob o espaço). Sob essa dominação política e econômica através do espaço urbano, desigualam-se os que moram na periferia subequipada que não é região industrial e os que moram na periferia subequipada que é região industrial: menos verdadeiramente modesta ou pobre a condição dos que são do bairro. Se tanto aqui, como ali, vida e morte (precariamente) se afastam – ruas sem calçadas, casas antigas, bairros pobres, bem pobres –, aqui também (eroticamente) se tangenciam – o borborinho e a alegria, o carnaval, as assembleias públicas – pelos corpos e tempos não repetitivos, pelas ruas, no subcentro. Nem tão pobres os que puderam morar onde trabalham.

Finalmente, no período que se estenderia da terceira cidade – a cidade do espaço dividido, dos corpos e tempos obscurecidos– à quarta – a cidade do espaço fragmentado, dos corpos e tempos apagados-, surgidas as fábricas, convertida a cidade em centro de produção, dominante um modo de produção, em luta as classes e, segundo Flávio Villaça (2001), dividido o central entre o centro e os subcentros, a desigualdade quanto à disponibilidade de equipamentos e de infraestrutura e à qualidade de construções entre os setores das camadas de baixa renda e o setor da camada de alta renda passa a coincidir com a desigualdade quanto à economia de viagens: eis a periferia ante o centro, e vice-versa. Eis a estrutura onde se farão opacas as relações sociais de produção? Eis a metrópole?

Eis que ante a intensificação do trabalho, dividido na fábrica, divide-se o operário da massa pobre urbana. Para o operário, vida e morte não mais se afastam precariamente: pela casinha própria guardada por portão de ferro, com seu jardim, com seu fogão a gás[3]; pelas coisas humanizadas – frutos do trabalho desumanizado –, afasta-se a negatividade da vida (e do trabalho), em casa, em família, mais do que no bairro, mais do que na cidade, miniaturizados esses monumentos. Em casa, miniaturizam-se o tempo cósmico em tempo de sobra; a apropriação em economia (em propriedade); a dissipação do corpo (a experiência) em reprodução da força de trabalho (em vivência).

Para a massa pobre urbana, vida e morte anulam-se: produção sem reprodução e vice-versa; nem cotidianeidade, nem cotidiano, mas corpo crônico, tempo-coisa, e coisa alguma. Para os outros, divididos do operário e da massa pobre urbana, entretanto, a abundância também não reproduz uma renovação triunfal da Festa (nem da experiência- transindividual).

Na cidade-metrópole – unidade esfacelada em periferias e centros (e esfaceladas as periferias, em cada coisa, até cada corpo domesticado, e os centros, em cada coisa, até cada corpo glamurizado)[4] –, miniaturiza-se a obra, agiganta-se o produto, numa desigualdade entre rigorosamente desiguais, numa igualdade entre rigorosamente iguais, sob o mínimo e o máximo, sob a cotidianeidade, sob a impossibilidade da reunião no e pelo espaço, do urbano? Sob a opacidade das relações sociais capitalistas de produção – no e pelo espaço –, sob a reprodução das relações sociais capitalistas de produção – no e pelo espaço –, respondemos. Mas também sob a acumulação primitiva estrutural, respondemos mais completamente.

Se a tese de Martim Smolka é a de que “é possível discernir em diferentes momentos certas inter-relações entre o processo de estruturação social e econômico e o processo de estruturação espacial”; se a de Edward Soja é a de que é “cada vez mais possível afirmar que a evolução da forma urbana (a estrutura espacial interna da cidade capitalista) tem seguido o mesmo ritmo periodizável de formação e reformação induzidas pela crise que moldou a paisagem macrogeográfica do capital desde os primórdios da industrialização em larga escala”, e se a de Flávio Villaça é a de que a estruturação do espaço intraurbano brasileiro “só remotamente se relaciona com as transformações por que tem passado o capitalismo nacional e mundial nas últimas décadas”, qual é a nossa?

Nossa tese – ou o que nos foi revelado – é: se o espaço torna-se um instrumento de dominação política da burguesia, isso não se daria somente pela organização da produção, pela divisão do trabalho, pelo controle da mão de obra necessário à acumulação. Esses mesmos organização-divisão-controle, impulsionados ao – e pelo – espaço, são impulsionados ao – e pelo – corpo – de trabalhadores e mesmo de não trabalhadores – e ao – e pelo – tempo de uns e de outros. Trata-se, portanto, mais do que garantir “o controle do processo de produção”, ou “as condições de acumulação lucrativa do capital e do controle da mão-de-obra”; mais até do que favorecer “a reprodução das relações sociais de produção dominantes, inclusive na esfera ideológica”: a reprodução das relações sociais de produção serve-se do espaço, tanto quanto do tempo e do corpo – dessa realidade prática, dessa existência concreta. “É no cotidiano que se tem prazer ou sofre. Aqui e agora”, escreveu com inusitada simplicidade Henri Lefebvre.

É também por esses prazeres e sofrimentos, por essa outra escassez e essa outra abundância, que nossa história se distingue. Na cidade brasileira, entre os séculos XIX e XX, o que se forjou não foi a desigualdade entre periferia e centro, entre pobreza periférica e riqueza central: forjaram-se, aí e então, desencontros entre o social e o econômico, que, se desencontro estrutural, é também identitário, ou vital, se desejamos escapar ao quarto de despejo da cultura. Se, de um lado, esta é uma história da alienação da vida, ela é também uma história da afirmação da vida.

Em Memórias videntes do Brasil: a obra de Pedro Nava, José Maria Cançado analisa um trecho de “Chão de ferro”, em que Pedro Nava narra a ida dos meninos do Colégio Pedro II à Sorveteria Pérola, no Rio de Janeiro, lembrando-se “dos sorvetes multicolores dos nossos oito Pérolas que os anos não trazem mais”, esquecendo-se “das longas dores por via de pequenas alegrias”. A essa metonimização – “oito Pérolas” no lugar de “oito anos”, “o objeto sumarento e inesquecível” no lugar dos sujeitos – José Maria Cançado nomeia, em oposição à reificação e ao aprisionamento do sujeito no objeto, “desantropomorfização-surpresa, com a qual possa haver mais ser, não menos ser”, uma desantropomorfização que significa “o jogo e as transformações de uma identidade protéica”. Esse o jogo do escravo que circula livremente, do Cartola, do Sr. Amadeu, do Adoniran, da família de José de Souza Martins, e de Carolina Maria de Jesus. O objeto sumarento e inesquecível de que se compõe sua identidade proteica é o que é variável, tanto quanto o são seus carecimentos: a liberdade, a criação, o reconhecimento, a maloca mais linda, o jardim e o fogão a gás, a casa no bairro. Tornados esses carecimentos do outro quando se chega à metrópole? Sim, mas não, se apostamos nessa identidade, ou nessas identidades proteicas[5], na desantropomorfização (do sujeito) como na humanização (da coisa), na apropriação sob a dominação, no gozo sob a necessidade.

26) Há 12 horas deste 2 de Agosto, o anúncio de que ocupantes (cujo número não contabilizarei) da Câmara Municipal de Belo Horizonte decidiram entrar em greve de fome. Exigem, diz o anúncio, a prestação de contas do mandato do Prefeito (cujo nome não pronunciarei) e a abertura das planilhas das empresas concessionárias de ônibus. Exigem o que foi obtido como direito constitucional. Exigem mais: exigem o que antes disso é direito, o que nos é cinicamente ( a cada vez que escrevo-ouvindo – pois assim escrevo, em voz alta- essa palavra) negado, uma, duas, três, milhões de vezes e que uma, duas, três, milhões de vezes exigiremos: a vida de que a morte, única, é a falta.

27) Se a Ditadura do Capital impõe indistintamente – a distantes e próximos, pobres e ricos, pretos e brancos, mulheres e homens, jovens e velhos, a abstração do espaço (do tempo, do corpo), a abstração mesma da vida (e da morte), esta fome na Câmara, como a morte nas ruas explicitam a sua radicalização, o terror. Se tomadas – pelo Estado- Capital (e por muitos de nós outros também)- como contingentes, é porque o terror instaurado na cotidianeidade (não será preciso anunciar o anunciado pelo Censo de 2012 do IBGE: há menos moços do que moças não porque nasçam nessa proporção, mas porque moços, negros sobretudo, morrem mais, morrem antes- já o sabíamos, ainda o sabemos) quer se fazer valer no cotidiano em conquista.

A pergunta é afinal: teremos que matar? Teremos que matar para que se anule esse jogo? Isso, isso não gaguejamos na Assembléia Horizontal da quarta-feira.

28) Em 31 de Julho de 2013 – “dia histórico para a luta por moradia em BH e no Brasil”, demarca Raquel Rolnik – a ocupação da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte por movimentos de moradia termina com a promessa do poder público municipal de suspensão das ações de despejo das quais era o autor.

Se se reconhecem como limitadas as definições de “revolução” – por uma mudança política ao nível do Estado, pela propriedade coletiva dos meios de produção-, trata-se agora de uma revolução do espaço (para além da urbana) e, com ela, da restituição do corpo total, do tempo total, da vida total.

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29) Não, não seremos mortos em cemitérios privados.


[1]     Cf. BENJAMIN (1987).Tomando-se a terminologia benjaminiana, poder-se-ia falar em experiência sob a relação assimétrica e, portanto, não transindividual escravo-senhor?

[2]     E o empregado, quase-escravo- branco (nas palavras de Gilberto Freyre), nessa medida.

[3]     Milton Santos, em Pobreza urbana, pergunta: “De que adianta afirmar que um indivíduo é menos pobre, agora, em comparação à situação de 10 anos atrás, ou que é menos pobre na cidade em comparação à sua situação no campo, se esse indivíduo não tem o mesmo padrão de valores, inclusive no que se refere aos bens materiais? A única medida válida é a atual, dada pela situação relativa do indivíduo na sociedade a que pertence”. Em Manuscritos econômico-filosóficos, Karl Marx já escrevera: “A fome é fome, mas a fome que se satisfaz com carne cozida, que se come com faca e garfo, é uma fome muito distinta da que devora carne crua, com unhas e dentes”. Em A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção, o mesmo Milton Santos escreve: “As classes médias amolecidas deixam absorver-se pela cultura de massa e dela retiram argumento para racionalizar sua existência empobrecida. Os carentes, sobretudo os mais pobres, estão isentos dessa absorção, mesmo porque não dispõem dos recursos para adquirir aquelas coisas que transmitem e asseguram essa cultura de massa. É por isso que as cidades, crescentemente inigualitárias, tendem a abrigar, ao mesmo tempo, uma cultura de massa e uma cultura popular, que colaboram e se atritam, interferem e se excluem, somam-se e se subtraem num jogo dialético sem fim”. Adiante o autor faz aproximarem-se os conceitos “cultura de massa” e “práxis repetitiva”, “cultura popular” e “práxis inventiva”. Nesse sentido, não se trata de contabilizar uma maior ou menor pobreza ou riqueza materiais entre períodos, mas de associar a acumulação de coisas (da qual se nutre a cultura de massa) ao amolecimento da práxis inventiva, ao amolecimento do cotidiano, ou à cotidianeidade.

[4]     No período que se iniciaria por essa quarta cidade, eclodiria a luta entre esses dois corpos – o domesticado e o glamurizado? Em “Uma outra pobreza urbana”, Margareth Afeche Pimenta denomina “equilíbrio neurótico” a coexistência entre o estímulo a um consumo compulsivo e o empobrecimento contínuo da população. Para a autora, “quanto mais ampliada a diferenciação e a exclusão social, maior a necessidade de aquisição de signos”. Alba Zaluar, por sua vez, em “Para não dizer que não falei de samba: os enigmas da violência urbana no Brasil”, mostra como a passagem de um consumo “familiar para um consumo de ‘estilo’ muito mais caro” é também responsável pelo aumento da violência urbana no Brasil.

[5]     Haveria, ainda assim, uma identidade, ou, se preferirmos, a coexistência estrutural de tempos históricos. José Maria Cançado ilustra o que seria o “ciclo longo da memória popular, que pode ser atribuído a um antidarwinismo do imaginário sócio-histórico”, referindo-se a um episódio ocorrido numa pesquisa de campo realizada no sertão da Bahia por pesquisadores norte-americanos e assim narrado por Richard Morse, em O espelho de Próspero: cultura e idéias nas Américas: “Ao perguntar [um dos pesquisadores] a seus informantes – a partir de um modelo de investigação que havia dado ‘resultados’ num estudo legislativo dos Estados Unidos – se podiam identificar o presidente do Brasil, uma camponesa idosa e analfabeta respondeu ‘Pedro Álvares Cabral’, o suposto descobridor do Brasil em 1500. Essa resposta deixou desnorteados nossos patologistas políticos, pois, ainda que pudessem prever que em seu próprio país uns dez a vinte por cento estivessem drogados ou imaginassem que Roosevelt ou Eisenhower continuavam sendo presidentes, jamais esperariam uma resposta como ‘Cristóvão Colombo’ ou ‘William Bradford’ […]. Para mim, a persistência do seu nome (Cabral) na imaginação popular durante cinco séculos sugeria menos uma ‘falta de informação’ que um maduro sentido de história, esse mesmo sentido que, como Whitmann deplorava em Democratic Vistas, tem tão pouca saída na pobre cultura folk da democracia tocquevilliana” (MORSE, Richard. O espelho de Próspero: cultura e idéias nas Américas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p.141).

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2 respostas em “Morituri mortuis (Por uma vida sem catracas!)

  1. Querida Alicia,
    Como sempre denso, intenso, imenso e com conveniência atemporal mas triste achei eu. Não sei se é minha vontade imprópria de querer as mudanças mas que tenham um final piegas como os filminhos americanos, final feliz, mesmo que por suposição, em aberto, esperando o Morituri mortuis 2.
    Beijão Sylvio de Podestá

  2. Sylvinho, triste o que, querido? O texto, aquilo de que ele fala?
    Bem, não queremos um final feliz…rs queremos uma vida toda sem catracas…rs
    Beijos, com muitas saudades!

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