“Flores nas maçanetas” ou “O ódio às catracas é irracional?”

Harley Silva*

Belém do Pará é uma cidade impressionante, por motivos vários. Cidade síntese de séculos de convivência truncada entre a sociedade brasileira e o bioma amazônico. O Teatro da Paz é uma pérola daquela cidade. Uma pérola no sentido de joia, beleza rara, mas também no sentido metafórico empregada na canção pelo poeta[1]: convivência rancorosa e cruel, gerando beleza e transcendência, mas sem esconder de fato suas raízes dolorosas. A construção materializa por muito motivos a natureza das relações sociais que o trouxeram a realidade. Encravado na grande cidade amazônica, tudo no teatro remete a um apego estético e cultural com o externo. Lustres da França iluminam tetos onde belas pinturas representam uma Amazônia estilizada, estranhamente europeizada. Colunas de mármore não apenas retirado da Itália, mas talhado naquele país, uma profusão de metais ingleses. Tudo esconde, mas tudo remete, à crueza das condições de produção material, que tornou esse monumento possível, o trabalho do homem amazônico, o caboclo, na floresta tropical.

Teatro da Paz: detalhe de pintura no teto.

Um aspecto sutil pode passar despercebido ao visitante. As maçanetas originais de muitas salas do teatro – assim como vários outros itens iconográficos refinados – serviam como código e instrumento de distinção, barreiras reais e simbólicas para os expectadores nos dias de glória da borracha. Flores que decoravam ricamente as maçanetas de louça fina advertiam: apenas as mãos certas devem abrir essa porta! Apenas os autorizados podem transpor essa porta! Os confortos dos aposentos não são reservados a todos!

Aquela que seria ultima das maçanetas floridas.


Quase todas as maçanetas originais, diz-se, desapareceram. Consta que apenas uma sobreviveu, servindo de mote ao espirituoso comentário do guia, que arranca um suspiro ou um sorriso momentâneo do visitante apressado, impaciente para fotografar algum outro requinte do bom gosto da belle époque antes de voltar a reclamar do calor amazônico. E o espirito que animava o sutil código da segregação desapareceu?

A atuação de militantes em Belo Horizonte tem questionado a existência de um desses símbolos, a catraca. Sua natureza não tem a sutileza das maçanetas de louca florida. Elas costumam se apresentadas como manifestação da objetividade e racionalidade da organização. Como um imperativo técnico da segurança. Prescindir delas, disse, é recair no desconforto, na desorganização e incerteza que assolam nossos tristes trópicos; herança malfazeja. São artifícios objetivos, tecnificados. Reagir a eles é mostrar uma rejeição irracional da necessidade.

É obvio que esse argumento não é totalmente falso. A separação absoluta entre verdade e erro é ela própria enganosa, nos lembra Henri Lefebvre. A organização é um imperativo da realidade. Pensando no evento que motivou a escrita deste texto, um espetáculo musical com artistas de renome internacional em Belo Horizonte, ao qual acorreram milhares de pessoas, a ausência de organização é a antessala do fracasso, senão da tragédia.

[O evento reuniu no dia 07 de Agosto de 2013, artistas brasileiros de renome, como Paralamas do Sucesso, Paulinho da Viola e Caetano Veloso. Na oportunidade, ativistas manifestaram contra o caráter fechado do evento, muito embora os ingressos pudessem ser retirados, desde que se tivesse acesso à internet e pudesse usar o seu cartão de crédito para pagar R$ 2,0.]

E, no entanto, nada é mais distante da irracionalidade do que a manifestação contundente dos ativistas contra as catracas. A rejeição as catracas não parece ser a rejeição a organização, ao dimensionamento confortável do espaço para o espectador do espetáculo. Não é a negação da vontade e necessidade de conviver em ambientes seguros.

Então, o que é falso e o que deve ser rejeitado na “perspectiva das catracas”? Esse é um debate longo e não haverá uma resposta cabal aqui, é obvio. Mas certamente podemos dizer que há algo de comum entre a catraca e a maçaneta florida do Teatro da Paz.

No teatro paraense, cuja construção testemunha a opulência de uma sociedade cujos recursos naturais conectados ao coração da economia internacional, o artificio estético tornava sutil, quase imperceptível a violência da segregação, o absurdo do privilegio e da exclusão. Sua sutileza, aliás, atravessa eras. Tornada uma curiosidade turística, ela não estorva o visitante, não comunica ao bem nascido visitante, nem ao descendente do excluído suas motivações indefensáveis. De modo similar, no evento musical da capital mineira a catraca e a cerca aparecem como pura objetividade, imperativo racional. Não estorvam – ou o fazem com poucos – os espectadores cujo conforto afirma garantir.

No Teatro da Paz, na Praça da Republica em Belém, afastada a vitima, a segregação torna-se conforto, distinção. O distinto homem bom da Amazônia não tem outra ocupação que não fruir em sua terra natal as pérolas da cultura cosmopolita. Em Belo Horizonte, afastadas as contradições do espaço urbano pela cerca e a catraca, o espectador se reconforta no êxito de evento “bem organizado”, “gratuito”, “ao alcance de todos”. As contradições do acesso restrito a cultura, da ausência do direito a cidade, da exiguidade do espaço público fora da região Centro-Sul não são mais do que uma nota distante, que não atrapalham o gozo do momento.

A manifestação contra as catracas, a rejeição da segregação, o incomodo retornar de sua existência a comodidade do nosso cotidiano não é irracional, nem é um desserviço. Muito pelo contrário: é um imperativo, uma necessidade. A luta pela “retirada das catracas” e pelo banimento das maçanetas floridas é uma necessidade. Caso contrário a privação de direitos para o grosso da sociedade brasileira será sempre nosso passaporte, nosso ingresso, estético ou técnico, subjetivo ou objetivo, concreto ou metafórico para a continuidade do subdesenvolvimento.

A riqueza e a brevidade, em perspectiva histórica, da econômica da borracha na Amazônia são manifestações do subdesenvolvimento enraizado em nossa cultura de naturalização da exclusão. Fruído com um espetáculo nababesco e cheio de requintes importados, o momento de expansão econômica da borracha se deu emaranhado a exclusão, ao acesso restrito a pouco aos direitos em geral e ao direito a cidade em particular. Esse é o perfeito cenário para a perpetuação do subdesenvolvimento e da dependência. Se não desnaturalizarmos a segregação não há nem pode haver caminho para o desenvolvimento. Perpetuada essa situação não haverá outro desfecho que o sombrio conflito descrito poeticamente pela canção, ainda que haja infinitos resultados belos

“Conservas o fulgor do nosso ódio/ estreitando a velha concha… somos sorte e azar, eu sou tua relíquia, tu és minha ruína.”

————–

*Doutorando em economia pelo Cedeplar-UFMG.

[1] A belíssima canção Siameses de João Bosco e Aldir Blanc: “Amiga inseparável/rancores siameses/nos unem pelo olhar. Infelizes pra sempre/Em comunhão de males/obrigação de amar. E amas em mim a cruel indiferença./Aspiro em ti a maldade e a doença. Vives grudada em mim,/gerando a pedra/em teu ventre de ostra/e eu conservo o fulgor do nosso ódio/estreitando a velha concha…”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s