É por vinte centavos mesmo!

Celso Vieira*

Os protestos que começaram em São Paulo se espalharam pelo Brasil entraram na moda. Algo está na moda quando há uma adesão massiva sem muita consideração dos motivos de tal escolha. Por um lado este fenômeno é importante pois a quantidade de participantes legitima o movimento. Por outro lado esta adesão tende a diluir os motivos da escolha até esvaziar a questão. Um exemplo disso no caso de São Paulo é a estratégia comum à maioria dos apoiadores do movimento de defender que a motivação dos protestos não são apenas os vinte centavos de aumento na passagem de ônibus. ‘E você ainda acha que é por causa de vinte centavos?’ Nesta pergunta retórica está implícito o consenso de que este valor irrisório não justifica protesto algum. Este consenso demonstra como a maioria das pessoas que aderiram ao movimento, nós, os jovens de classe média, ainda não conseguimos nos identificar com os prejudicados por esse aumento, trabalhadores que vivem as voltas com um salário mínimo por mês.

Uma maneira de tentar criar empatia entre estas partes que querem estar juntas mas não conseguem seria trazer o depoimento de algum destes trabalhadores para testemunhar a grandeza da diferença destes 20 centavos no seu orçamento. Outra maneira, mais imparcial, é fazer alguns cálculos para entender a questão. 20 centavos por passagem para alguém que toma quatro ônibus por dia para ir trabalhar ou estudar somam 80 centavos. Em um mês de 26 dias úteis gasto totaliza 20,60 reais. Isso quer dizer que um assalariado mínimo que ganha 22,60 acaba de perder quase um dia por mês. Ou seja, trata-se de um aumento relevante que é sim uma causa justificável para os protestos.

Além de mostrar uma cisão entre os insatisfeitos essa diferença de opinião traz um problema ainda mais sério. Em um grupo com muitas perspectivas as reivindicações multiplicadas em excesso correm o risco de se diluírem. Sem ter uma reivindicação específica os protestos perdem também a possibilidade de obter sucesso. Para tomar exemplos recentes pode se comparar o movimento global do Occupy com a greve canadense dos estudantes. O Occupy teve muito mais participantes e não tinha uma causa específica. Desta maneira, apesar da comoção global e adesão massiva, não sortiu efeito nenhum simplesmente porque não havia o que ser conquistado. Diferente disto foi a greve dos estudantes canadenses. Comprometidos com a meta de impedir o aumento da mensalidade eles se mobilizaram até conseguir o que queriam, o que aconteceu apenas por causa da adesão massiva.

Possuir uma causa específica e também uma adesão massiva parecem ser condições de sucesso de um protesto numa democracia. Portanto parece válido o esforço de satisfazer estes dois critérios. A questão é complexa pois uma vez que a adesão massiva muitas vezes depende da ampliação do escopo das reivindicações. Em Belo Horizonte, por exemplo, o eco dos protestos de São Paulo foi encabeçado, e apoiada, por vários grupos, cada um com a sua causa. Movimentos ecológicos como o Fica Ficus (contra a remoção dos Ficus da Bernardo Monteiro), sociais como Fica Vila (contra a construção da torre empresarial no Santa Teresa), políticos como o Fora Lacerda (contra o atual prefeito) e Copac (contra os problemas sociais gerados pela copa do mundo) encorparam o protesto. Além destes, cujos participantes muitas vezes se confundem, houve o apoio massivo da população insatisfeita com a política no país. Apesar da importância de cada participante que soma na manifestação esta pluralidade acaba prejudicando a especificidade do movimento.

Diante deste dilema uma solução possível é definir metas específicas as quais todos aceitam reivindicar. A escolha das metas pode ser ordenada de acordo com a urgência. Por exemplo, uma das externalidades da Copa do Mundo foi o impedimento dos mercadores informais de trabalharem nas imediações do Mineirão. Belo Horizonte tem nos shoppings populares e alocação dos camelôs um exemplo mais ou menos bem sucedido de realocação de trabalhadores informais. Esta experiência teve pontos negativos por não incorporar os artesãos de rua que acabaram sem lugar. Porém a informalidade de vendedores de cerveja, sanduíches e etc parece ter uma unidade que legitime uma solução inclusiva. Pensando na diversidade seria preciso também considerar catadores de latinha, mas o desenvolvimento do exemplo em seus detalhes foge do objetivo deste texto. Isto parece servir como um bom caminho para uma reivindicação construtiva em prol dos mercadores do redor do Mineirão. A apresentação de um caminho para a solução que considere o ponto de vista de todos os interessados também parece aumentar as chances de sucesso de um protesto específico, mas isso também é um outro ponto.

Para concluir de maneira bem opinativa resta deixar claro de que a existência de tantas causas indica que há campo para alguma causa comum e mais ampla entre os insatisfeitos. Todos os movimentos citados acima têm causas pertinentes e sua importância está no esforço de impedirem que as questões da cidade sejam decididas de maneira unilateral. Na minha opinião uma causa ampla o bastante para abarcar todos os movimentos mas específica o suficiente para não perder força seria a exigência pela mudança do sistema de democracia representativa no país. A separação entre políticos e população é grande a ponto de impedir que uns se sintam como parte da mesma comunidade que os outros. Antes de se apressar em julgar as pessoas como culpadas convém lembrar que o mesmo acontece dentro do movimento no caso da separação entre aqueles pra quem vinte centavos justificam o protesto ou não. A minha sugestão é que se mude o sistema para se mudar o comportamento das pessoas. Uma possibilidade seria a exigência de que os políticos representantes ouçam os representados em encontros mensais face a face. Um esboço de um novo quadro começaria a se desenhar se cada vereador (e deputado) fosse vinculado a uma regional  a qual ele teria que ir semanalmente para um encontro com os moradores na associação do bairro. Ele passaria o dia ouvindo anotando e respondendo as questões dos moradores. Estas deveriam gerar um documento com pontos específicos e numerados antes de serem encaminhadas as instâncias do governo, estadual ou federal, das quais seriam de responsabilidade. Depois, deputados e vereadores teriam que voltar e prestar satisfações aos moradores. Por exemplo, ele teria que dizer ao eleitorado que, como determinado no item 1 da reunião prévia, a questão a redução de passagens foi considerada e julgado justa uma vez que houve redução nos impostos cobrados das empresas de transporte. De qualquer forma isso é só uma sugestão apressada para uma outra utopia. O ponto principal é a validade do esforço de se conjugar a adesão massiva em torno de algumas questões específicas com justificativas e reivindicações claras e pontuais.

*Celso Vieira é doutorando em filosofia pela UFMG e sua opinião é só mais uma entre as outras. Ele gostaria de ouvir nos comentários sugestões de problemas e possíveis soluções específicas sobre a cidade para aumentar o seu repertório que não é muito grande.

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10 respostas em “É por vinte centavos mesmo!

  1. concordo. é por 0.20 centavos sim. dizer que não é um ajuste que inclui e legitima o lugar da classe média nessa história toda. bobagem, não precisa disso. a classe média já é legítima. os 0.20 centavos fazem diferença para grande parte da população que não pode ir às ruas, ou porque está trabalhando, ou cuidando dos filhos, ou porque vive uma guerra cotidiana com lutas diárias, psicológicas, físicas, estruturais e, assim, ir às ruas pode não ter tanto valor. a revolução será burguesa e midiatizada. é por 0.20 centavos sim, para que os 0.20 centavos não façam tanta diferença na vida da maioria dos brasileiros. eu vou às ruas por uma educação de qualidade, que emancipe e liberte as pessoas da opressão capital, vou pela participação social e política, vou na esperança de ver cada vez mais pessoas nas ruas, pela tomada de consciência cidadã de todos e todas. acho legítimo termos várias vozes e demandas diferenciadas nas manifestações. é mais um começo e há vários gritos presos na garganta. mas é importante que as coisas se organizem. não temos “lideranças” e acho que assim deve ser, mas é fundamental alinharmos um pensamento único, ou plural rumo à uma mesma direção. como fazer? não sei. por hora, vou às ruas e colo em todos os movimentos, em todos os incômodos, sou sensível à quase todas as causas. milito pelo direito de militar. massa seu texto.

    • Valeu PK. Tinha respondido pela manhã mas deu algum pau. De qualquer forma eu tinha previsto o sucesso do caso de São Paulo, justamente pq eles tinham uma meta bem definida. Agora é não se acomodar e partir pra outra meta!

  2. Celso,muito pertinente seus comentários,e realmente há que se fazer uma depuração desse movimento,mas no futuro.Por hora o povo está na rua exercendo sua cidadania como não se faz há mais de 20 anos,desde o DIRETAS JÁ e o Impeachman do Collor.Esses jovens desse movimento estão apenas experimentando um começo de inclusão,pois até hoje ainda não tinham sido ouvidos por ninguém,a classe política simplesmente ignorou-os até então.Deixem eles exercerem sua cidadania,deixem errarem,mas o que não podemos mais permitir é omissão.Com certeza o Brasil sairá mais forte depois dessas manifestações.

    • Wallace, também apoio mesmo se não houver resultado prático algum, mas é mais provável que a caminhada seja mais longa se a gente for coletando pequenas vitórias a cada passo!

  3. então, celso. pensei nisso muito ao longo do dia ontem, andando da praça sete até a abraão caram, conversando com algumas pessoas. o occupy é uma ótima referência desse paradoxo, a horizontalidade que é a principal força do movimento é também sua principal fraqueza, porque nos coloca esse quebra-cabeça ultra-difícil de resolver: como canalizar essa energia na direção dos outros momentos da política? sejam elas demandas, propostas, reivindicações etc. não sei se a ideia é revolução de fato, e com todo o radicalismo que ela implica (não negociamos com o poder, simplesmente acabamos com ele pra depois ver o que fazer no dia seguinte), mas parece que não é o caso, e a condenação da destruição de patrimônio e do conflito com a polícia por parte da enorme maioria dessas massas é um indicador disso. e aí pensamos o seguinte: será que a informática seria uma saída possível? se veio da internet pras ruas, à internet precisa voltar pra dar o próximo passo? podemos desenhar um sisteminha online, como se fosse uma ágora onde entram todos sem hierarquia, propondo itens que seriam votados ou contados eletronicamente, montando algum algoritmo que nos ajudaria a formular um documento final a partir de um processo de debate online o mais horizontal possível e cabendo a maior quantidade possível de gente? seria isso uma coisa orwelliana demais pros nossos corpos antigos que tão adorando essa história de sair do computador pra andar, gritar, carregar cartaz, respirar gás lacrimogêneo, correr da porrada etc.?

    • Sinceramente eu não compro essa de horizontalidade… isso começou no movimento feminista dos EUA onde se dizia que hierarquia era um modelo de organização masculina. Mas logo que o movimento encorpou foi preciso estabelecer metas e ações e as lideranças foram surgindo. Sem isso elas não teriam tido sucesso. Em todo grupo surge uma hierarquia, formal ou não. O ponto positivo dessa pretensa horizontalidade, no entanto, é que os líderes estão mais dispostos a ouvir opiniões, mas há de se convir que a maioria das opiniões não acrescentam tanto assim. Sistema online é legal, listas de pedidos tão saindo aí, a sua é bem boa, por exemplo, mas uma hora algum grupo pequeno vai ter que pegar e definir os passos. SP só conseguiu a revogação das passagens por isso, Agora eles tão com mais força e com certeza já têm articulado o próximo passo, pelo que vi na entrevista que deram no roda viva, eles são muito bem coordenados.

      • existe uma diferença entre o representante e o delegado, em que o segundo precisa prestar contas o tempo todo e pode ser revogado a qualquer momento (mais ou menos na direção do que vc propõe). não sou totalmente avesso a essas hierarquias controláveis, só acho que a gente tem uma oportunidade em mãos de fazer um exercício radical de democracia direta que nunca foi feito nessa escala e com essa pluralidade (tô com a sensação de ir pras ruas nos próximos atos gritar contra ideias de gente que vai estar lá também, gritando suas ideias…). pode ser bobagem isso, e pode ser querer dar munição pro outro lado – que não sabe se organizar nessas estruturas orgânicas, fora das instituições tradicionais, a não ser em coisas tipo instituto millenium etc. – mas acho que os grupos organizados que forem surgindo e/ou se fortalecendo a partir do que tá acontecendo não vão dar conta de não se descolar dessa base enorme que se formou aí, e alguma forma de traduzir e canalizar essa energia toda que tá nas ruas seria muito interessante.
        outra coisa é que essa conversa da democracia radical e a defesa da horizontalidade vai muito além do feminismo, na teoria é desde rosa luxemburgo, passando pelo castoriadis, agora a chantal mouffe com o ernesto laclau, a abordagem do hardt com o negri também, dentre vários outros, todos criticando a democracia representativa. isso é importante porque o capital só se sustenta com o Estado, e é instrinsecamente incompatível com um nível de democracia mais aprofundado, então é um jeito de atacá-lo pela base.
        mas enfim, um monte de confusões, bem reflexo do momento confuso mesmo…

  4. “20 centavos por passagem para alguém que toma quatro ônibus por dia para ir trabalhar ou estudar somam 80 centavos.”
    Meu filho, quem paga os 4 ônibus só pode ser burro, porque na cidade em questão existe o Bilhete Único que permite você pegar uns 4 ou 3 ônibus se não me engano num intervalo de até 3 horas pagando apenas uma passagem, e está disponível para qualquer um. Logo, corte os gastos pela metade.

    • José, me desculpa, sou de BH e apliquei a realidade daqui lá em SP, foi mal. De qualquer forma um salário mínimo às vezes sustenta mais de uma pessoa, e, mesmo se fossem 40 ou 20 centavos por dia, a diferença não deixa de ser significativa e restringir a mobilidade, não só para fins de trabalho, na cidade. Valeu aí pela correção!

  5. Oi Celso. O Blog é realmente bom.
    Em relação ao paradoxo da horizontalidade e verticalização das ações, acho que a verticalização acaba excluindo muitas pautas sobre o que realmente toca as pessoas.

    Fui em todos as manifestações (sim, foram minhas primeiras e não me envergonho) até agora e vi toda evolução dela na rua.

    Fui pra rua no sábado por mobilidade urbana. essa era minha pauta era o que me tocava sair de casa num sábado e ir pra rua. Chegando lá vi muita gente contra o nascituro (que acho um absurdo e aprendi com eles), também vi as pessoas que estavam lá pelos abusos da copa e pelos que foram expulsos de suas casas sem indenização justo, ou alguma, (que também acho um absurdo).

    Aprendi, estudei as outras causas depois, e acho elas muito justas. Mas ainda assim, quero resolver o problema da mobilidade. minha pauta é essa, e pude encontrar vozes no meio da multidão que queriam isso também, assim como outros escutaram vozes como as suas. Isso que estamos vivendo agora é único no mundo. Não tem uma referência tão clara. não é igual ao occupy, tampouco ao movimento feminista, apesar de suas semelhanças.

    Acho que temos que ir pra rua mesmo, e encontrar nossos grupos, vermos que não estamos só na nossa pauta. Nós teremos que aprender a lidar com essa pluralidade. Os governantes também deverão aprender. Vimos que sabemos nos mobilizar. E acho que assim devemos buscar as soluções(como a dos encontros tete a tete, por exemplo). Vamos ver como se desenrola.

    Amanhã estarei lá. Pela mobilidade urbana, que não foi em nada melhorada pela copa.

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