A gota de 20 centavos

Foto: Pedro Chavedar

[Texto escrito como sequência do post anterior, escancarando as discussões, como o tema exige, para retornar ao aspecto específico da mobilidade nos próximos]

Insurreições populares e grandes manifestações na metrópole são eventos de importância central para aqueles que estudam cidades, por motivos diversos. O espaço urbano é intrinsecamente político, tem um conteúdo conflitivo inerente, expressa a tensão entre forças e mantenedores e reprodutores de formas de poder e dominação que visam se fortalecer, se legitimar, se perpetuar, e dinâmicas transformadoras que emergem contra este poder estabelecido. A cidade é a presença intensificada do primeiro conjunto de forças, como sede do poder e do excedente econômico, mas ao mesmo tempo é um caldeirão criador de novas manifestações e dinâmicas do segundo grupo: é uma máquina geradora de movimentos insurgentes, organizados contra a dominação imposta pela ordem vigente.

Uma das diversas origens do urbanismo moderno está justamente na necessidade conservadora de re-organizar as grandes cidades pós-revolução industrial no sentido de amenizar os problemas inerentes ao capitalismo nascente (como forma de legitimá-lo, inclusive), de aumentar a eficiência e a fluidez do espaço urbano para o próprio sistema econômico que dependia crescentemente da aceleração dos fluxos, e na configuração de um território – na Paris do Barão de Haussmann – que fosse demograficamente denso mas vacinado contra revoluções, revoltas e insurreições populares (que aquela cidade conhecia muito bem), através de bulevares largos que facilitariam o movimento ágil de tropas contra eventuais barricadas.

Os eventos em torno do aumento das passagens são expressões de uma vontade de democracia. Refortalecem o que se ensaiou em 2011 a partir de respingos em mobilizações diversas no Brasil dos movimentos no norte global – 15M e Occupy, principalmente – reacendendo lutas que partem de questões concretas e específicas, mas que se referem no fundo a processos mais amplos, relacionados à forma de governo pseudo-democrática que se fortaleceu no mundo como o cerne do neoliberalismo. São um excelente sinal de que a subjetivação visada pelo aparelho ideológico neoliberal não tem sido capaz de manter intacto o reino da individualização completa, que opera nas causas de fracassos e situações de crise (nunca atribuídas a dinâmicas sociais), e na oferta de soluções e saídas para os problemas do cidadão tornado consumidor através do próprio mercado. Para uma grande parcela da população, trata-se de uma série de eventos inéditos, paralelos em escala somente às grandes mobilizações no período da redemocratização. O fato de que toda a grande mídia corporativa (com exceção talvez da revista Carta Capital) se posiciona abertamente contra os movimentos, distorcendo os fatos, e trazendo editoriais que nos fazem lembrar como ainda é vivo no Brasil o tipo de sentimento fascistóide por trás do apoio ao golpe de 64, também deve ser visto com bons olhos, pois escancara e revela claramente a natureza da “ordem” almejada pelas parcelas dominantes que controlam diretamente estes veículos: aquela em que a violência em larga escala da escravidão (mal) remunerada aliada ao endividamento generalizado e às condições inaceitáveis de vida cotidiana na metrópole só podem ser aliviadas pelos de baixo por um passeio ao shopping center no fim de semana. A violência policial também entra no mesmo registro, de um bom e claro sinal do que é a natureza do poder deste Estado pseudo-democrático e do que ele é capaz pra se afirmar (para além da cooptação de movimentos e partidos de esquerda, que foi peça fundamental na história recente da experiência brasileira), e também como demonstração de sua ação cotidiana nas periferias metropolitanas, onde a violência policial é coisa de todos os dias.

Um dos principais pilares da permanência do neoliberalismo velada sob a (tímida) transferência de renda da última década é a lógica dos serviços públicos mantidos precários para o florescimento de mercados consumidores garantidos para a oferta privada destes serviços no quarteto saúde, educação, transportes e habitação, para os quais a nova classe C constitui um mercado enorme, com grande apetite de consumo. É neste sentido que os protestos vão muito além da simples tarifa do transporte: trata-se de um combate contra o Estado pseudo-democrático, que só se legitima no crescimento econômico, hermético ao diálogo com aqueles que não estejam em movimentos domesticados por este modelo de governo pautado por financiadores de campanha. A metrópole se torna protagonista tanto dos processos perniciosos de cerceamento, de transformação da cidade numa grande fábrica social canalizadora de dividendos na direção do setor financeiro, do consumo como religião e como única saída a partir do sucateamento do que é público, quanto da busca por brechas e saídas, da luta pela democracia real, das tentativas de construção do bem comum.

A grande ironia da violência policial neoliberal aliada aos discursos fascistóides dos editoriais da grande mídia é pensar como o neoliberalismo surgiu, no discurso político de Friedrich Hayek, como um manifesto anti-nazifascista – no auge da 2a guerra, (embora com um viés abertamente liberal, capitalista e conservador, com uma visão das liberdades individuais como liberdade de comércio e de investimento, e da força de trabalho -sem alternativas viáveis – de ser explorada por quem escolher) denunciando as tendências autoritárias do Estado keynesiano, e defendendo a ideia de que os próprios países que lutavam contra o nazi-fascismo apresentavam dinâmicas internas, pela burocratização que o Estado de bem estar envolvia, que potencialmente levariam na mesma direção do Estado totalitário. É muito sintomático e revelador do que é relação entre Estado e capitalismo que, ao longo do tempo, o neoliberalismo tenha passado deste pequeno e inofensivo embrião no discurso libertário de orientação conservadora de F. Hayek a uma forma de governo cada vez menos democrático e mais autoritário, e que depende do autoritarismo para se manter (sendo que o exemplo está não somente na brutal repressão aos eventos de São Paulo no dia 13 de junho de 2013, mas sobretudo no que vem ocorrendo nos últimos anos na Europa em crise).

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