Tarifas de transporte, congestionamentos e o imbecil coletivo

[Texto escrito antes dos eventos da última quinta-feira em São Paulo. Inseri uma imagem dos protestos que ilustra bem o argumento (junto com uma boa dose de ambiguidade), mas publico como está, e atualizo as considerações na sequência.]

Entrando nas discussões mais ligadas ao planejamento ubano, vou tentar trazer uma pequena série de posts a respeito da (i)mobilidade em BH, que são considerações que geralmente me ocupam a cabeça quando estou andando a pé ao lado de centenas de carros parados, ou dentro do metrô lotado (tenho sorte de morar perto), ou pedalando no meio do trânsito, ou parado sozinho no volante participando da (anti-)festa. Deixo de citar o bom e velho balaio porque a experiência de andar de ônibus em Belo Horizonte não é a experiência de ficar parado no trânsito, mas a de ficar parado no ponto de ônibus. 90% das vezes em que resolvo insistir e tomar o ônibus ele demora mais que o previsto, e muito mais que o razoável. E então, por que isso acontece? (Não somente em BH, diga-se de passagem).

A prefeitura, através da BHTrans, concede o direito de explorar as linhas de ônibus da cidade a empresas privadas que ganham licitações que valem por 20 anos. A última foi feita em 2008. Precisamos esperar até 2028 (14 anos depois da tão esperada Copa) pra alterar as regras vigentes, que basicamente são: as tarifas são ajustadas anualmente para manter um nível mínimo de lucratividade (que desconhecemos, assim como a prestação de contas dessas empresas), levando em consideração: os preços de combustíveis, pneus, óleos etc., a depreciação dos ônibus, a quantidade de ônibus em circulação e a quantidade de passageiros. Antigamente as empresas eram remuneradas por quilômetro rodado, e depois de 2008 passou a ser por passageiro. Outra alteração importante foi que anteriormente qualquer mudança de linhas, itinerários e quadros de horários era controlada pela BHTrans. Hoje as empresas têm autorização de alterar o quadro de horários caso a quantidade de passageiros caia, para evitar o custo alto de ônibus circulando vazios, simplesmente comunicando as alterações e suas causas. Então temos duas variáveis de ajuste (para um nível dado de lucro): o preço da passagem e a quantidade de ônibus em circulação. O resultado disso é um ciclo vicioso horrendo: quando piora o serviço de ônibus, menos gente vai usar, mais tempo os ônibus vão demorar, pior ele vai ficar. Ou: quanto pior o ônibus, pior o ônibus.

Isso acontece porque se o trânsito piora por outros motivos (por exemplo: aumento da frota em função do crescimento econômico e de hábitos de consumo que não precisamos comentar aqui – mas certamente comentaremos em outros posts), o ônibus demora mais para terminar seu percurso, passageiros insatisfeitos migram para o transporte individual (é muito mais barato comprar uma moto), diminuem os passageiros, diminui a quantidade de ônibus em circulação, e ao mesmo tempo as passagens continuam aumentando – naquela época do ano de poucas mobilizações nas ruas, no deserto quente de janeiro em BH. Então o que temos aí é um incentivo da BHTrans ao transporte individual, uma sinalização da prefeitura induzindo as pessoas a não usarem o transporte coletivo, somado ao incentivo explícito do governo federal ao aumento da frota. Não sei se isso é tão claro, mas o fato do transporte coletivo ser precário é uma causa primordial no problema de mobilidade que temos hoje, pois não temos uma estrutura viária losagenlesca, repleta de vias expressas elevadas recortando a cidade em todas as direções, completamente direcionada ao uso generalizado do automóvel. E ainda bem que não é o caso. Se ainda podemos andar a pé por aí e não temos todo o comércio e as atividades não-residenciais dentro de shoppings e galerias (apesar dos esforços das autoridades para alterar este quadro), é em parte por causa disso.

Diga-se de passagem que este é um problema urbano que ganha tanta atenção e visibilidade porque afeta os ricos da cidade – apesar de afetar os pobres muito mais, e que, considerando a magnitude do impacto cotidiano, aparece muito pouco na pauta de reivindicações dos movimentos sociais mais ativos em torno de questões relacionadas à vida na metrópole. Mas, de fato, o resultado é visível:

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A quantidade de carros por ônibus nessa brincadeira é o que mais chama atenção, e é o principal motivo do problema. Quando apareceu essa foto na rede, da Amazonas com Contorno num fim de tarde chuvoso em 2010, pensamos como era um bom retrato do imbecil coletivo, que é o outro lado da moeda do indivíduo do cálculo utilitarista racional de custos e benefícios, risco e retorno, que saíram de dentro dos manuais de economia pras ruas das nossas metrópoles. Depois dessa primeira aparição ele perdeu a timidez e voltou outras vezes:

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A palavra proibida dos subsídios é uma questão chave nesse quebra-cabeça, assim como a violenta e total repressão da prefeitura ao transporte alternativo no início da década passada. E as bicicletas, a ausência do metrô, o BRT, os motoboys etc. A continuar…

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5 respostas em “Tarifas de transporte, congestionamentos e o imbecil coletivo

  1. Acredito que a crítica é necessária (como em SP, GO e agora RJ), mas também observo que é importante o acompanhamento dos processos de construção dessas modalidades de transporte. Fiz algumas pesquisas e encaminho alguns links da PBH e do Estado sobre os dois modais de alta capacidade que estão sendo revisados e produzidos para Belo Horizonte:

    BRT: http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/contents.do?evento=conteudo&idConteudo=54472&chPlc=54472&&pIdPlc=&app=salanoticias

    METROBH: http://www.metrominas.mg.gov.br/

    Aquele abraço…

    • Mauro Cesar? Você não deve morar em bh né cara?! se morasse em bh não iria elogiar as obras da prefeitura. É muito fácil observar que existe corrupção por traz dessas obras que nunca acabam. Na avenida Antônio Carlos por exemplo, um pista de concreto feita para durar décadas, foi completamente refeita sem necessidade. Agora observo outra piada relativa as obras do BRT onde as estações foram mal dimensionadas e estão sendo refeitas. E esse papo de metrô minas foi apenas uma jogada da Babá do cidadão para ser reeleito. No seu primeiro dia de mandato, Lamerda, afirmou que seria impossível qualquer obra do metrô antes de 2014.

      Pense bem…

      • Oi, Felipe. Vejo em seu comentário e crítica uma insatisfação e irritação com os rumos dos investimentos e implantação das modalidades de transporte pela PBH e pelo Estado. No entanto gostaria de fazer algumas ressalvas que acredito serem necessárias:

        – Quando realizei meu comentário ao post do Felipe procurei ressaltar o aspecto de acompanhamento continuo destas políticas atraves das informações disponibilizadas publicamente. Acredito que mais informados podemos produzir uma critica e ação mais sólidas. Um exemplo disso é a crítica que venho fazendo a proposta da nova estação de metrô “Novo Eldorado”. Ela possui uma implantação que não favorece a integração com as futuras estações urbana e interestadual em Contagem (ambas já com projeto executivo pronto). A informação que dá suporte a minha critica está disponível no site da Metrominas.

        – Com relação sua critica sobre o cronograma e problemas de execução, aconselho que procure Organizações Não Governamentais, o Ministério Público, seu representante no legislativo,  organize-se com mais pessoas para cobrar da PBH ou do Estado, ou atue como agente de esclarecimento responsável sobre esses processos. Produzir a crítica é importante mas entendo que ela deva ser estopim para alguma ação. Se você já faz ou fez algumas dessas coisas, está de parabéns.

        – E por último, realmente não moro em BH. Estou residindo em Contagem há dois anos, morei em BH por cinco e durante todo esse tempo trabalho em BH. Se você reler meu comentário verá que em nenhum momento faço elogios a PBH, ou qualquer intervenção que ela esteja fazendo. Com relação a sua sugestão sobre pensar bem, procuro sempre adota-la.

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