Manifesto Burlemarxista 1: Jardins da Resistência x Natureza Morta

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FIG: Flyer produzido pelo INDISCIPLINAR para e exposição-manifesto NATUREZA MORTA realizada pelo Movimento FICA FICUS no Museu de Arte da Pampulha.

O Movimento FICA FICUS[1] apoia TODAS as formas de vida!

Repudiamos a recuperação estética em detrimento da qualidade ambiental, em detrimento das sombras das copas das árvores, para “melhorar” visualmente o território, para fazer aparecer os edifícios num processo de entendimento de que a cidade é uma empresa e precisa ser negociada. Entendemos que a cidade é para ser vivida e não para ser vista e comercializada.

Para o paisagista Frances Gilles Clément  o conceito de  Jardins de Resistência é o de uma área, pública ou privada, onde a arte da jardinagem – para o sustento, prazer, parques ou outros programas de acompanhamento, urbano ou rural, é praticada em harmonia com a natureza e o homem, livre da dominação de mercado. Diversidade, tanto biológica e cultural, bem como a preservação da água, do solo e do ar é incentivada para o bem comum. Para ele, acima de tudo, os jardins são vivos e estão sempre em movimento.[2]

No contexto atual da cidade de Belo horizonte faz-se esclarecedor recorrer a tal conceito. Crescida sob o status de cidade Jardim será que a cidade ainda honra tal título? O bem comum é objetivo da construção dessa cidade? Políticas públicas de gestão e planejamento do espaço urbano vêm, sistematicamente, podando o “Belo Horizonte” em nome de um progresso econômico e da criação rápida e eficiente de uma cidade preparada para a Copa do Mundo que nada tem a ver com a construção de qualquer bem comum. A falta de diálogo com a população no que diz respeito à concepção dos projetos reforça o estranhamento causado pelo corte de milhares de árvores saudáveis em nome de tais projetos[3].

O ensejo de se tornar relevante no cenário turístico internacional tem sacrificado árvores e jardins. Um dos projetos que nos tem chamado atenção ultimamente é o de recuperação de todo o paisagismo dos jardins que conformam o complexo da Pampulha, de autoria de Roberto Burle Marx. Inserido no conjunto de intervenções que almeja garantir o título de patrimônio da humanidade ao complexo, o projeto prevê em seu escopo a supressão de dezenas de árvores sadias que, por motivos variados, cresceram em meio aos jardins do paisagista, mas que não faziam parte de seu projeto original. Mas tal ação se contrapõe à essência do pensamento do paisagista para quem os jardins estão sempre em movimento sob a ação transformadora do tempo.

Burle Marx declarava que a planta “goza, no mais alto grau, da propriedade de ser instável. Ela é viva enquanto se altera.” Segundo alguns pesquisadores de sua obra, o paisagista não se preocupava apenas com o aspecto estético de seus jardins. A condição de botânico lhe deu um amplo conhecimento do ciclo de vida das plantas, prevendo as suas mutações e transformando-as em parceiras de sua obra. O conhecimento da botânica lhe revelou que as plantas vivem em associação. Burle Marx dizia que apenas iniciava o trabalho dos jardins, pois “o tempo completa a ideia.” [4]

A trajetória de Burle Marx sempre foi pautada no respeito com a natureza e em sua investigação.  Segundo o próprio paisagista sua influência vem de sua mãe.  “Quando eu comecei a trazer plantas do mato que eu gostava ela nunca disse ‘ai Roberto isso é mato’. Ela dizia: ‘Roberto que coisa bonita, eu nunca tinha visto, isso é uma espécie de manifestação divina.’[5]

O argumento do replantio das árvores suprimidas tenta justificar e acena com uma possibilidade de restauração ambiental e compromisso ecológico. Mesmo que numa realidade remota onde paisagistas e jardineiros  se tornem elementos importantes das políticas urbanas oficiais, não estarão eles sendo instrumentos de um esverdeamento tardio? A manutenção de árvores adultas possibilita a sobrevivência de vários ecossistemas já em equilíbrio rompendo com uma ecologia urbana constituída. Uma recomposição demandaria a necessidade do plantio de 100 árvores para cada uma derrubada sem o mesmo efeito das árvores adultas segundo o biólogo Sérvio Pontes Ribeiro[6].

Gilles Clément acredita que os jardins são formas de reflexão sobre o que é público e de fazer política. Apoiado sob o tripé conceitual do Jardim Planetário, do Jardim em Movimento e da Terceira Paisagem ele aponta para o Jardim da Resistência como possibilidade. Segundo Olivier Mongin num mundo de fluxos, pressões econômicas e do urbano generalizado, o jardim “se torna um espaço que se abre para o comum como uma raridade.” [7] Ele deve criar mundos e tecer o acesso a um espaço comum: lugar partilhado e também ordinário que se move com o tempo.

A Carta de Florença (1981), sobre a salvaguarda dos jardins históricos, estabelece que:

“A intervenção de recuperação deve respeitar a evolução do jardim em questão. Em princípio, não se deve privilegiar uma época em prejuízo das demais, a não ser em casos excepcionais quando o grau de degradação ou destruição que afeta certos elementos do jardim seja de tal envergadura que aconselhe a sua reconstrução…”

Em entrevista, Carlos Fernando de Moura Delphim[8] coloca de forma clara e precisa qual seria para nós do Movimento Fica Ficus, a postura correta a ser seguida na restauração de um Jardim Histórico. Questionado sobre como proceder na restauração dos Jardins da Agronomia da UFRGS onde um roseiral existente inicialmente foi substituído por um bosque e onde as condições de luminosidade impediam a convivência harmoniosa entre o roseiral e as árvores ele respondeu:

“Não retirarei um bosque vivo e adulto para voltar a plantar roseiras. Recomendarei que, quando as árvores forem morrendo, não sejam replantadas. O bosque não impede uma solução híbrida que concilie o roseiral com as árvores: exposições anuais, na primavera, de mudas de roseira em flor, promovida pelos produtores para venda no local. Quando um dia, todas as árvores estiverem mortas, as roseiras poderão ser replantadas, se então isto for considerado conveniente nos padrões da época.”[9]

No que diz respeito à questão urbanística destacamos a possível liberação da construção de dois hotéis de 13 andares na Avenida Alfredo Camarate, numa área localizada a apenas um quilômetro  da orla. Como ficará a paisagem horizontal da Pampulha? Quais os critérios e a coerência interna de um projeto que não foca na despoluição da orla, condena as árvores e libera a verticalização?

Segundo Roberto Burle Marx “sem compreender as necessidades de uma cidade e, principalmente, sem compreender as funções das áreas verdes [que é servir as pessoas], um paisagista não poderá realizar jardins.”[10]  A partir dessa premissa estamos nós do Fica Ficus aqui para pensarmos juntos o que seria a restauração dos jardins de Burle Marx com a proposta de restaurar não só a imagem do jardim mas também o pensamento ecológico, focado nas pessoas e na pesquisa com respeito à natureza do nosso grande paisagista.

E ainda acreditando ser possível um diálogo entre o Poder Público e a Sociedade Civil Organizada, entregamos este documento ao mesmo tempo que solicitamos ao Exmo Sr.Prefeito Márcio Lacerda que interrompa os cortes previstos pelo Projeto de Revitalização dos Jardins de Burle Marx e inicie uma escuta dos anseios e apelos dos cidadãos que não se conformam com a perda desse “patrimônio arbóreo” em nosso Município. Será manifestação de sensibilidade política a decisão de rever o corte de árvores que cresceram sob os auspícios das antigas gestões.

O “jardim domado” – que é tese da maior parte dos arquitetos que defendem os projetos originais – não ocorreu no decorrer dos anos. Será injusto para o nosso Meio Ambiente Urbano que ele seja implantado à custa de árvores adultas, úteis e sadias, com grande prejuízo para o ecossistema que delas se beneficia.

Dessa forma, solicitamos também o repasse e publicidade de toda a documentação referente à aprovação do corte dessas árvores, incluindo a prerrogativa que a sustenta, a saber, onde está escrito que para que consigamos o título de Patrimônio Cultural da Humanidade faz-se necessário “assassinar árvores”, incluindo algumas que são objeto de preservação.

Sem mais, agradecemos a oportunidade de intermediarmos um diálogo com o Poder Público, como representantes legítimos de pelo menos parte da população de Belo Horizonte.

Belo Horizonte, 17 de maio de 2013


[2] CLÉMENT, Gilles. Gardens of Resistance. Disponível em http://www.gillesclement.com/cat-jardinresistance-tit-Les-Jardins-de-resistance. Tradução própria. Gilles Clément é paisagista francês e importante teórico da paisagem com vários projetos premiados dentre eles o Parque Citroën e os Jardins do Rayol.

[3] Como exemplo dessa postura destacamos o projeto de alargamento da Avenida Presidente Antônio Carlos onde restaram apenas seis árvores no trecho da lagoinha ao viaduto São Francisco. A instalação do BRT pressupõe ainda a retirada de palmeiras centenárias para sua instalação. No entorno do Mineirão cerca de 800 árvores, a maior parte delas nativa, foi cortada. As podas dos Ficus das Avenidas Barbacena e Bernardo Monteiro também são exemplares. A partir do diálogo e da participação encontrou-se um caminho mais efetivo com a utilização do óleo de Nim que se mostrou bastante eficaz no combate à praga da mosca branca evidenciando a precipitação dessas podas. Mas a morosidade na certificação do Nin para uso em áreas urbanas é uma prova de que o mercado do agrotóxico e das grandes indústrias agrárias não quer que descubramos a eficácia deste produto natural.

[5] OLIVEIRA, Ana Rosa. Tantas vezes paisagem. Rio de Janeiro: FAPERJ. 2007. p. 22. O Livro transcreve entrevistas com Roberto Burle Marx e pessoas que influenciaram sua carreira.

[7] MONGIN, Olivier. Les Jardins font la ville.  Rio de Janeiro: Aliança Francesa. 2013. p. 10.

[8] Carlos Fernando de Moura Delphim é arquiteto, pioneiro na defesa dos Jardins Históricos no Brasil, passando a tratá-los como bens culturais, segundo as normas internacionais de preservação. Foi membro suplente da Comissão O Homem e a Biosfera da Unesco e elaborou o parecer conclusivo sobre a inclusão do Rio de Janeiro na lista de Patrimônio Mundial da Unesco.

[9] OLIVEIRA, Ana Rosa. Tantas vezes paisagem. Rio de Janeiro: FAPERJ. 2007. p. 31.

[10] OLIVEIRA, Ana Rosa. Tantas vezes paisagem. Rio de Janeiro: FAPERJ. 2007. p. 140.

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